Com previsão de 78,6 mil novos casos de câncer de mama por ano no Brasil, psicóloga destaca que o cuidado com a saúde das trabalhadoras deve fazer parte da rotina e das decisões das empresas.

Da Redação
Campanhas de Outubro Rosa, palestras e ações de conscientização sobre o câncer de mama ganham espaço nas empresas durante outubro. No entanto, a mobilização nem sempre se traduz em medidas concretas para garantir que as trabalhadoras tenham condições de realizar exames, buscar atendimento médico ou enfrentar um tratamento sem receio de prejudicar a carreira.
Para a psicóloga Elaine Fernandes, sócia da P2B Cultura & Liderança, o compromisso das organizações com a saúde precisa ultrapassar as ações de comunicação e estar presente nas decisões dos gestores e nas relações de trabalho.
“É importante as empresas realizarem campanhas de prevenção e, simultaneamente, criarem oportunidades para que as colaboradoras realizem seus exames. A campanha precisa ser coerente e sustentada por ações e práticas reais no que diz respeito sobre a forma como a organização trata as pessoas. E essa coerência vem, em especial, de quem lidera”, afirma.
A discussão ocorre em meio ao avanço dos casos de câncer de mama no país. Segundo estimativas do Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deve registrar 78.610 novos casos da doença por ano entre 2026 e 2028. O câncer de mama é o tipo mais incidente entre as mulheres brasileiras, desconsiderados os tumores de pele não melanoma.
Além do acesso à informação, o diagnóstico precoce depende de condições para que as mulheres procurem os serviços de saúde. No ambiente profissional, jornadas rígidas, cobranças excessivas e o receio de faltar ao trabalho podem representar obstáculos à realização de consultas e exames.
Liderança tem papel decisivo no cuidado com a saúde
Segundo Elaine, um dos principais problemas é quando a responsabilidade pelas campanhas fica restrita aos departamentos de Recursos Humanos e Comunicação, sem mudanças efetivas na gestão das equipes.
Entre as medidas que podem contribuir para um ambiente mais acolhedor estão a flexibilização de horários para consultas, o respeito aos afastamentos médicos e o apoio às profissionais que retornam de tratamentos.
“Um bom líder não espera que a pessoa precise escolher entre cuidar da saúde e cumprir suas responsabilidades profissionais. Ele organiza o trabalho, dialoga com a equipe e busca alternativas para que as duas coisas sejam possíveis. Isso não significa abrir mão de resultados, mas compreender que pessoas saudáveis são parte fundamental deles”, explica.
A psicóloga também chama atenção para a contradição entre campanhas institucionais de valorização da saúde e ambientes profissionais em que colaboradores enfrentam constrangimentos ao apresentar atestados ou solicitar mudanças na rotina para atendimento médico.
“Os colaboradores percebem rapidamente quando existe uma distância entre aquilo que a empresa comunica e o que realmente acontece. Se o discurso é de acolhimento, mas o comportamento das lideranças não corresponde ao que é propagado, a mensagem perde credibilidade. Cultura organizacional não é aquilo que está escrito, mas o que as pessoas vivenciam diariamente”, destaca.
Outro aspecto é o respeito à privacidade. O acolhimento não deve significar pressão para que trabalhadores revelem diagnósticos ou compartilhem informações pessoais sobre a própria saúde.
Cuidado precisa continuar depois de outubro
A campanha também levanta questionamentos sobre a capacidade das empresas de manter políticas de saúde e bem-estar ao longo do ano. Para a especialista, o impacto das iniciativas não deve ser avaliado apenas pelo número de palestras realizadas ou pelo alcance das publicações nas redes sociais.
É necessário observar se os trabalhadores encontram apoio para buscar atendimento e se as lideranças estão preparadas para lidar com situações de adoecimento.
“Uma campanha de saúde não pode ser apenas uma oportunidade de fortalecer a imagem da empresa. Ela precisa provocar uma reflexão sobre como as pessoas estão sendo tratadas. Quando o líder entende isso, ele deixa de ser alguém que apenas compartilha a mensagem da campanha e passa a ser um agente de transformação dentro da organização”, avalia Elaine.
A reflexão também se estende ao Novembro Azul e a outras campanhas de saúde física e emocional. O desafio é transformar iniciativas pontuais em práticas permanentes, capazes de conciliar as necessidades dos trabalhadores com a organização das atividades profissionais.
Para Elaine, o verdadeiro compromisso com a saúde é demonstrado nas condições oferecidas aos colaboradores, e não apenas nas mensagens divulgadas durante as campanhas.
“Vestir uma camiseta rosa, compartilhar uma mensagem e dizer que a empresa apoia uma causa é uma parte do processo. A congruência será percebida nas possibilidades reais de acesso aos exames e tratamentos pelas colaboradoras. Dessa forma a liderança demonstra se o cuidado é realmente um valor da organização”, conclui.



