Campanha de 2026 destaca que os cuidados devem continuar fora da UTI neonatal; levantamento identificou mais de 75 mil internações relacionadas à prematuridade.

Da Redação
A saída da maternidade ou da Unidade de Terapia Intensiva (UTI) neonatal não significa o fim dos cuidados necessários aos bebês prematuros. O acompanhamento médico após a alta hospitalar é fundamental para identificar possíveis dificuldades no crescimento, na alimentação e no desenvolvimento infantil. O alerta faz parte do Novembro Roxo 2026, campanha dedicada à conscientização sobre a prematuridade.
Considerados prematuros, os bebês que nascem antes de completar 37 semanas de gestação podem apresentar necessidades específicas de saúde, que variam conforme a idade gestacional, as condições do nascimento e a evolução clínica.
Neste ano, a campanha tem como tema “Prematuro: pequeno no tamanho, grande no potencial. Investir no acompanhamento pós-alta é proteger o futuro”. A iniciativa foi desenvolvida em colaboração com a Organização Mundial da Saúde (OMS) e entidades dedicadas à saúde neonatal.
O objetivo é ampliar a atenção para uma etapa que começa depois da internação, quando as famílias passam a assumir os cuidados diários e precisam manter o acesso a profissionais especializados.
Mais de 75 mil internações relacionadas à prematuridade
Dados da plataforma DRG Brasil, desenvolvida pelo Grupo IAG Saúde, mostram que foram registradas 75.301 internações relacionadas ao nascimento prematuro entre janeiro de 2022 e junho de 2026, no conjunto analisado.
Desse total, 53,7% envolveram necessidade de cuidados intensivos. O tempo médio de permanência hospitalar foi de 15,2 dias, mas chegou a 49,4 dias entre os bebês nascidos antes de completar 28 semanas de gestação.
O levantamento também identificou pelo menos 1.789 readmissões hospitalares nos primeiros 30 dias de vida. Entre as condições relacionadas a essas novas internações estavam a icterícia, responsável por 69,4% dos registros, e dificuldades alimentares, com 9,8%, além de doenças respiratórias.
Os números evidenciam a complexidade da assistência neonatal e a necessidade de continuidade dos cuidados após a saída do hospital.
Desenvolvimento infantil exige atenção nos primeiros anos
Uma pesquisa publicada em 2024, com participação de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), acompanhou 34 crianças prematuras até os 12 meses de idade corrigida, por meio de avaliações presenciais e a distância.
Entre os participantes, 18 apresentaram pelo menos uma alteração nos testes de desenvolvimento. Quando identificados sinais específicos de atraso, as crianças foram encaminhadas para serviços de intervenção precoce.
Embora o estudo tenha envolvido um grupo pequeno, os resultados reforçam a importância do monitoramento individualizado e da identificação de possíveis dificuldades durante o crescimento.
A idade corrigida, utilizada principalmente nos primeiros dois anos, considera o tempo que faltava para o bebê completar 40 semanas de gestação. Esse cálculo ajuda os profissionais a avaliar o desenvolvimento de maneira mais adequada.
Alta hospitalar representa uma nova etapa para as famílias
Para a pediatra e neonatologista Rita Silveira, professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), a alta da UTI neonatal costuma provocar sentimentos diferentes nos pais.
Ao mesmo tempo em que representa uma conquista após o período de internação, o retorno para casa pode trazer insegurança diante das necessidades de uma criança que ainda precisa de cuidados específicos.
O acompanhamento deve considerar aspectos como ganho de peso, alimentação, respiração, desenvolvimento neurológico e possíveis alterações da visão e da audição.
Segundo Denise Suguitani, diretora executiva da ONG Prematuridade.com, o debate sobre a prematuridade precisa ultrapassar a preocupação com a sobrevivência durante a internação.
A entidade defende a ampliação do acesso a especialistas, serviços de acompanhamento e redes de apoio para que as famílias recebam orientações durante o desenvolvimento das crianças.
O atendimento adequado não elimina todos os riscos associados ao nascimento prematuro, mas permite reconhecer necessidades e oferecer intervenções no momento oportuno.
Acompanhamento especializado pode fazer diferença
O cuidado após a alta pode envolver pediatras, neonatologistas, enfermeiros, nutricionistas, fisioterapeutas, fonoaudiólogos e outros profissionais, conforme as necessidades de cada criança.
Durante as consultas, são avaliados o crescimento, a alimentação, a vacinação e as habilidades motoras, cognitivas e de comunicação.
Também é importante que os responsáveis recebam orientações para reconhecer sinais de alerta, como dificuldade para respirar, recusa persistente de alimentação, sonolência excessiva e alterações importantes no comportamento.
O acompanhamento especializado deve ocorrer de forma integrada às consultas regulares de saúde infantil.
Campanha reforça importância do cuidado contínuo
O Novembro Roxo busca chamar a atenção da sociedade e dos serviços de saúde para a necessidade de ampliar o atendimento aos bebês prematuros e apoiar suas famílias.
A campanha também destaca que cada criança possui um ritmo próprio de desenvolvimento e que o nascimento prematuro não determina, necessariamente, a ocorrência de sequelas.
Mais do que garantir a sobrevivência durante os primeiros dias de vida, a proposta é assegurar que essas crianças tenham acesso a acompanhamento adequado, identificação precoce de dificuldades e oportunidades de desenvolvimento ao longo da infância.




