Ninguém vem me salvar?

por Viviane Uga

A gente cresce com a ilusão elegante de que existe alguém vindo. Não importa muito quem. Só importa que venha. Na infância, são os pais, que apagam a luz do quarto e garantem que nenhum monstro atravessa a porta. A gente acredita porque precisa. Depois a gente cresce e continua acreditando, só troca o tipo de monstro e o tipo de promessa.

E ninguém interrompe essa fantasia.

Pelo contrário. Ela é incentivada. Vendida. Embalada em filmes, músicas, histórias de amor que terminam exatamente onde a vida real começaria a desmoronar. A gente aprende que vai encontrar alguém que vai ficar. Alguém que vai escolher ficar, todos os dias, como se isso fosse um talento e não uma instabilidade constante.

E então a gente encontra.

E quando encontra, entrega. Não um pouco. Tudo. Entrega o jeito de viver, de planejar, de sonhar. Entrega a versão mais otimista de si mesma, aquela que acredita que dessa vez é diferente. E sempre parece diferente. Esse é o problema.

Principalmente quando vira aquela relação que todo mundo admira. Aquela em que vocês são mais que um casal. São melhores amigos. Confidentes. Cúmplices. Quase uma entidade só, o tipo de coisa que faz os outros acreditarem no amor de novo.

Eu sempre sorrio quando ouço isso. Não é um sorriso bonito. É um sorriso educado, quase irônico, que tenta não estragar o momento. Porque eu conheço essa história por dentro. Eu sei exatamente o tamanho da queda de quem tem certeza.

E a certeza é sempre linda antes de virar ruína.

Porque o fim não vem com dignidade. Ele não respeita o que foi construído. Ele não faz homenagem ao passado. Ele não tem consideração pela sua entrega. Ele só chega. Às vezes numa terça-feira qualquer, no meio de uma rotina banal, como se fosse só mais uma decisão pequena.

E pronto. Não funciona mais.

Como se anos fossem reversíveis. Como se memórias pudessem ser desfeitas com a mesma facilidade de uma conversa desconfortável. Como se você não estivesse inteira ali.

O mais violento não é nem perder o outro. É perder a versão de você que existia dentro daquela história. É perceber que aquela pessoa que você foi não tem mais onde morar. E aí sobra você, mas não exatamente você. Uma sobra. Um eco. Uma casa vazia com móveis que ainda carregam marcas de alguém que já saiu.

E é nesse ponto que começa o verdadeiro espetáculo.

As pessoas dizem que vai passar. Dizem que você precisa se amar mais. Dizem que tudo acontece por um motivo, como se o motivo compensasse a dor. Dizem tantas coisas com uma tranquilidade irritante, como se não estivessem falando de um tipo de dor que reorganiza a forma como você enxerga o mundo.

E você aprende coisas que nunca quis aprender.

Aprende que o amor não impede o fim. Aprende que ser importante na vida de alguém não significa ser permanente. Aprende que dividir anos com uma pessoa não te dá nenhum tipo de garantia. Nenhum tipo de prioridade. Nenhuma cláusula de proteção contra o abandono.

E o pior aprendizado de todos é esse desconforto permanente ao ver outras pessoas felizes.

Não é inveja. É mais feio que isso. É uma espécie de antecipação. Você olha um casal apaixonado e não consegue ver só o começo. Você vê o possível fim. Vê a fragilidade escondida dentro da felicidade deles. Vê o quanto aquilo pode ruir, mesmo quando parece inabalável.

E você se odeia um pouco por isso.

Porque queria voltar a ser leve. Queria assistir ao amor dos outros sem esse filtro de quem já viu o bastidor. Mas não dá. Depois que você entende, não desentende.

E então vem o grande conselho moderno, repetido como um mantra vazio

aprenda a gostar da sua própria companhia

Como se fosse simples. Como se não existisse um luto inteiro dentro de você ocupando espaço. Como se fosse possível ignorar o silêncio que ficou. Como se a solidão fosse uma escolha consciente e não uma consequência.

Ninguém fala do quanto é insuportável voltar para uma vida que não era para ser só sua. Ninguém fala do cansaço de reconstruir planos sem vontade de planejar nem o dia seguinte. Ninguém fala da preguiça de explicar, da vergonha de admitir, da raiva silenciosa diante dos olhares de pena.

Porque tem vergonha. Muita.

Vergonha de não ter dado certo. Como se fosse um fracasso pessoal. Como se amar profundamente alguém que decidiu ir embora fosse uma prova de ingenuidade. Como se você tivesse errado por acreditar.

E talvez tenha. Talvez acreditar seja sempre um risco alto demais para quem não tem estrutura para cair.

Essa crônica é para você, amiga.

E eu não vou mentir para te confortar. Não vai melhorar amanhã. Não vai fazer sentido tão cedo. Não existe uma frase bonita que resolva. Não existe um fechamento digno para algo que terminou sem consideração.

Mas existe uma verdade que ninguém gosta de ouvir

ninguém vem te salvar

E isso não é libertador no começo. Isso é devastador.

Porque obriga você a levantar quando tudo que você quer é ficar no chão. Obriga você a existir sem apoio, sem garantia, sem a promessa de que alguém vai segurar sua mão no final do dia.

E mesmo assim você levanta.

Não porque é forte. Não porque superou. Não porque virou uma versão melhor de si mesma.

Mas porque não tem alternativa.

E talvez essa seja a parte mais cruel de todas

a vida continua mesmo quando você não quer continuar nela

E um dia, sem perceber exatamente quando, a dor muda de lugar.

Não some. Não se resolve. Não vira poesia bonita.

Mas muda.

E quando muda, você percebe que sobreviveu ao tipo de coisa que você jurava que não sobreviveria.

Não tem vitória nisso. Não tem redenção.

Só tem uma constatação seca, quase amarga

você continua aqui

sem ter sido salva

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