Por Viviane Uga

No caminho para o trabalho, todas as manhãs, eu escolho uma música e deixo que ela organize o ritmo do meu olhar. Não é só deslocamento. É um tipo de atenção. Um jeito de observar a cidade ainda acordando, como se, antes do barulho completo, fosse possível enxergar melhor os detalhes, os personagens, as pequenas cenas que passam despercebidas.
O Uber parou no semáforo ao lado de um carro estacionado. Dentro dele, uma mulher se maquiava. Eu me peguei acompanhando cada gesto com um interesse quase íntimo, como se aquilo me dissesse respeito. Ela fazia tudo com rapidez, talvez atrasada, talvez apenas obedecendo a essa pressa que a gente aprende cedo. Há uma coreografia conhecida ali: abrir a bolsa, pegar o espelho, equilibrar o tempo, resolver o rosto. Em um momento, ela abriu levemente a boca para passar a máscara de cílios. Um gesto involuntário, repetido por tantas de nós, quase um código silencioso. Havia algo de bonito nisso, mas não era a beleza da maquiagem pronta. Era a beleza do processo, da tentativa de dar conta de si antes de dar conta do mundo.
O sinal abriu e seguimos. Pouco depois, quando atravessei a Maracaju em direção à rua Antônio Maria Coelho, uma vitrine chamou minha atenção. Era uma daquelas montagens cuidadas, onde nada está ali por acaso. As roupas, a iluminação, a composição. Havia uma referência clara a Vivienne Westwood, algo entre o punk e os anos 80, uma estética que carrega mais do que estilo, carrega posição. Eu gostei do que vi, gostei mesmo. Mas junto com o gosto veio um pensamento rápido, quase automático: eu não vou ter um vestido desses.
Foi um pensamento simples, mas ele abriu uma fresta desconfortável. Porque não era só sobre a roupa. Era sobre o lugar que se ocupa quando se deseja algo que não é feito para você. Um lembrete sutil de que até o gosto, até o que nos encanta, também é atravessado por limites que a gente nem sempre escolhe.
O carro continuou, e a cidade também. Mais alguns metros e, perto do destino, outra cena. Uma pessoa deitada na rua. Provavelmente da minha idade. O corpo ali, exposto ao concreto, ao tempo, ao olhar de quem passa. Sem casa, sem o que a gente costuma chamar de estrutura mínima para viver.
E foi nesse ponto que tudo se embaralhou.
Porque minutos antes eu estava pensando em um vestido. E agora eu estava olhando para alguém que talvez não tivesse o que comer naquele dia. Não precisei de muito esforço para sentir o peso dessa comparação. Me senti pequena, um pouco envergonhada, mas principalmente impotente. Existe uma narrativa que a gente aprende, de que certos problemas são grandes demais, estruturais demais, distantes demais de qualquer ação individual. E, aos poucos, isso vai virando um tipo de proteção. Uma forma de seguir sem parar o tempo inteiro diante de cada injustiça.
Só que essa proteção cobra um preço.
A gente começa a passar pelas coisas sem realmente ver. Ou vendo, mas sem deixar que aquilo nos atinja de verdade. Como se sentir fosse um excesso, um luxo, algo que atrapalha o funcionamento do dia.
Eu não consegui passar ilesa por aquela cena. Meus olhos encheram de água, e não foi só pela pessoa deitada na rua. Foi por perceber o quanto tudo isso convive ao mesmo tempo, no mesmo trajeto, em poucos minutos. A mulher no carro tentando se organizar, a vitrine oferecendo um ideal de pertencimento, e o corpo no chão lembrando o limite mais duro de todos.
Cheguei ao meu destino com essa mistura difícil de nomear. Um incômodo que não se resolve fácil. Talvez a pergunta mais honesta seja essa: em que momento a gente aprende a não se implicar? Em que momento olhar deixa de ser suficiente?
Escrever isso foi o que encontrei para não deixar passar. No fundo, ainda me parece importante não endurecer completamente. Tem algo de essencial em continuar sendo atravessada pelas coisas, mesmo quando não há resposta imediata, mesmo quando o gesto possível parece pequeno demais. Talvez seja pouco. Mas talvez seja daí que alguma coisa ainda possa começar.



