Por Viviane Uga

Existe um tipo de cansaço que nenhuma olheira denuncia.
Um cansaço civilizado. Educado. Perfumado.
Ele aparece em mulheres que respondem e-mails enquanto choram no banheiro, em mulheres que aprendem a sorrir enquanto são interrompidas pela terceira vez numa reunião, em mulheres que descobriram cedo que competência nunca bastaria completamente porque, para nós, excelência nunca foi diferencial: sempre foi exigência mínima.
Nós, mulheres, crescemos entendendo uma matemática cruel dos espaços.
Há poucas cadeiras. Pouca escuta. Pouca legitimidade. Pouco perdão para erro. Pouca tolerância para fraqueza.
E quando um ambiente foi construído para comportar apenas uma mulher de cada vez, a presença da outra deixa de parecer companhia. Passa a parecer ameaça.
Talvez seja aí que nasçam certas durezas femininas que os homens jamais compreenderão completamente.
Porque existe uma violência sofisticada em sobreviver disputando migalhas de reconhecimento dentro de estruturas desenhadas por homens que nunca precisaram disputar a própria humanidade.
Eles chegam incompletos e são considerados promissores. Nós chegamos brilhantes e ainda assim somos avaliadas como insuficientes.
Então endurecemos.
Endurecemos a voz para que ela atravesse mesas de reunião ocupadas por homens medíocres excessivamente confiantes. Endurecemos a postura para não confundirem delicadeza com incompetência. Endurecemos o olhar para não demonstrar o medo constante de desaparecer socialmente no segundo em que relaxarmos.
E, às vezes, endurecemos umas contra as outras.
Não porque sejamos naturalmente cruéis. Mas porque mulheres cansadas aprendem cedo a transformar vulnerabilidade em mecanismo de defesa.
Há uma tragédia silenciosa nisso.
A sociedade costuma contar a história da rivalidade feminina como se fosse vaidade. Quase nunca como consequência política da escassez.
Nunca nos deram espaço suficiente para existir coletivamente. Então nos ensinaram a existir competitivamente.
Competimos por atenção. Por credibilidade. Por beleza. Por afeto. Por legitimidade intelectual. Por lugares onde homens frequentemente entram pela porta da mediocridade e ainda assim encontram aplausos esperando por eles.
Enquanto nós chegamos impecáveis.
Cansadas, mas impecáveis.
Existe algo profundamente solitário na experiência feminina contemporânea. Porque além de trabalhar, produzir, cuidar, performar estabilidade emocional e permanecer bonitas sob pressão, ainda precisamos parecer gratas.
Gratas pela oportunidade de ocupar espaços que, historicamente, nos foram negados.
E talvez seja por isso que tantas mulheres desenvolvem uma agressividade silenciosa umas com as outras. Não uma agressividade explícita. Pior. Uma agressividade elegante.
A frieza calculada. A comparação permanente. O elogio que diminui. A competição disfarçada de conselho. O desconforto diante de outra mulher parecida conosco.
Porque reconhecer semelhança também é reconhecer substituibilidade. E fomos ensinadas a acreditar que só existe espaço para uma.
Hoje penso em todas as Gabrielles que passaram pela minha vida.
As que admirei em silêncio. As que me irritaram porque refletiam partes minhas que eu ainda não sabia amar. As que interpretei como arrogantes quando talvez apenas estivessem cansadas de precisar provar inteligência o tempo inteiro. As que pareciam fortes demais para precisar de cuidado.
Talvez eu tenha confundido sobrevivência com invulnerabilidade. Talvez eu tenha exigido delas a mesma brutalidade emocional que pratico diariamente comigo mesma.
Porque mulheres fortes raramente são mulheres inteiras. Frequentemente são mulheres funcionando apesar da exaustão.
E o mais perverso é que o mundo transforma isso em elogio.
Chamam de força aquilo que muitas vezes é apenas impossibilidade de desabar.
Existe uma cena recorrente na vida das mulheres: uma mulher cansada olhando outra mulher cansada e ambas fingindo hostilidade quando, no fundo, o que existe ali é reconhecimento.
Reconhecimento do esforço. Da solidão. Da pressão estética. Do medo de envelhecer. Do medo de fracassar. Do medo de não ser suficiente nem depois de ter feito tudo certo.
Talvez a maior violência que cometeram contra nós tenha sido nos convencer de que somos concorrentes naturais. Porque mulheres verdadeiramente unidas desorganizam estruturas inteiras de poder.
Uma mulher sozinha pode até ser admirada. Muitas mulheres conscientes umas das outras se tornam perigosas.
Por isso escrevo hoje quase como quem tenta devolver humanidade às mulheres que a vida me ensinou a enxergar como disputa.
As Gabrielles da minha vida.
As que perdi. As que não compreendi completamente. As que talvez só precisassem de gentileza num mundo que lhes cobrava excelência ininterrupta. As que fingiam invencibilidade porque a fragilidade feminina continua sendo tratada socialmente como falha moral.
Hoje penso nelas com menos defesa. Menos comparação. Menos dureza.
Quase com ternura.
E talvez amadurecer como mulher seja exatamente isto: olhar para outra mulher parecida conosco e não sentir ameaça.
Sentir reconhecimento.
Como quem pensa, com uma tristeza bonita e madura:
“eu sei o quanto custou para você chegar até aqui.”



