Por Viviane Uga

Existe uma espécie de mulher que só aparece inteira nas fotografias antigas.
Nas atuais, ela já aparece pela metade.
Metade sorrindo, metade respondendo mensagem no WhatsApp. Metade na mesa do café, metade pensando no e-mail que esqueceu de mandar. Metade no aniversário do filho, quando consegue. Metade no trabalho, mesmo quando já saiu dele há três horas.
É uma mulher que desaprendeu o luxo de existir por inteiro.
A rotina faz isso com a gente com a delicadeza de um trator.
Ela acorda antes do despertador porque o cérebro já não dorme direito. Faz café. Procura meia. Procura mochila. Procura o documento da escola que pediram “com urgência” na noite anterior. Descobre que a urgência venceu ontem. Leva a criança. Vai trabalhar. Trabalha. Continua trabalhando. Sai tarde. Pega trânsito. Chega em casa com a dignidade pendurada por um fio de cabelo e uma presilha.
Os filhos ainda estão acordados.
Às vezes esperando.
Às vezes já acostumados.
Há diferença.
Uma é esperança. A outra é adaptação.
Ela beija a testa, pergunta como foi o dia e escuta um “foi legal” que resume uma apresentação da escola inteira que ela perdeu porque não tinha folha.
A folha é uma entidade fascinante. Mais poderosa que Deus e menos acessível que férias remuneradas.
Sem folha não teve presença.
Sem presença não teve mãe na plateia.
Sem mãe na plateia a criança procurou o rosto dela entre outros rostos e encontrou o da professora, o do porteiro, talvez o ventilador.
Ela não estava.
Mas estava.
No trabalho.
Que é aquele lugar onde dizem que ela é essencial.
Curiosamente, nos lugares onde ela é amada ela quase nunca consegue estar.
No sábado, finalmente a folga.
Folga é um nome criativo.
No sábado ela lava roupa.
No sábado ela limpa banheiro.
No sábado ela dobra toalha.
No sábado ela troca lençol.
No sábado ela passa no mercado.
No sábado ela responde a mensagem que começou com “amiga, saudades, vamos marcar?” enviada há quatro meses.
Ela responde: “vamos sim”.
Mentira delicada que mantém amizades vivas no Brasil contemporâneo.
Não confraterniza porque precisa limpar a casa.
Não limpa a casa porque quer.
Limpa porque a casa também adoece quando ninguém cuida.
E quando sobra algum tempo, aquele tempo microscópico, quase teórico, que escapa entre o fim da máquina de lavar e o início do sono…
aparece alguém perguntando:
“Mas e você? Está se cuidando?”
Como se autocuidado fosse uma atividade que acontece espontaneamente entre esfregar panela e pagar boleto.
Como se skincare sobrevivesse ao cansaço extremo.
Como se hidratação facial fosse capaz de resolver exaustão estrutural.
Como se a mulher precisasse de sérum.
Quando na verdade precisa de tempo.
Tempo é o cosmético revolucionário que nunca coube no orçamento.
Tempo para sentar.
Tempo para ler.
Tempo para olhar pela janela sem estar indo para algum lugar.
Tempo para tomar banho sem alguém bater na porta.
Tempo para brincar.
Tempo para ir à festa da escola.
Tempo para almoçar com as amigas.
Tempo para lembrar quem era antes de virar a gerente operacional da sobrevivência coletiva.
Porque esse talvez seja o luto mais silencioso da vida adulta:
não o de perder alguém.
Mas o de ir se perdendo.
Perder hobbies.
Perder vontades.
Perder o hábito de escutar música inteira.
Perder o costume de se olhar no espelho.
Perder o prazer de desejar coisas pequenas.
Até um dia em que você percebe que sabe exatamente onde está a certidão de nascimento de todo mundo da casa, mas não sabe mais onde colocou a si mesma.
E isso vai acontecendo sem escândalo.
Ninguém toca sirene.
Ninguém interrompe a programação.
Ninguém diz:
atenção, esta mulher está deixando de existir em parcelas semanais.
Ela continua funcional.
Produzindo.
Entregando.
Comparecendo.
Pagando.
Resolvendo.
Uma máquina excelente.
Com baixa manutenção emocional porque não há janela disponível para manutenção.
E toda máquina bem cuidada precisa parar.
Mas ela não para.
Porque no nosso brilhante modelo de organização social inventaram que descansar é privilégio.
E que exaustão é comprometimento.
E que trabalhar seis dias por semana é normal.
Normal para quem, nunca ficou claro.
Talvez para quem nunca precisou escolher entre ver a apresentação do filho ou manter o emprego.
Talvez para quem chama de produtividade aquilo que o corpo chama de limite.
Talvez para quem nunca chegou em casa tão cansado que teve vontade de sentar no chão da cozinha antes mesmo de tirar o sapato.
A escala 6×1 vende a fantasia de que oferece um dia de descanso.
Mas entrega apenas um intervalo técnico entre um cansaço e outro.
Não é folga.
É manutenção preventiva de mão de obra.
E talvez esteja na hora de admitir que ninguém nasceu para viver assim.
Nem as mães.
Nem os pais.
Nem os filhos que crescem aprendendo que amar alguém, às vezes, significa vê-lo sempre correndo.
Talvez reduzir jornada não seja sobre economia.
Talvez seja sobre devolver pessoas para suas próprias vidas.
Devolver mães aos filhos.
Amigos aos amigos.
Corpos ao descanso.
Domingos ao vazio bom.
E gente a si mesma.
Porque no fim das contas ninguém deveria precisar escolher entre ser profissional e ser presença.
Nem entre pagar as contas e assistir a dança da festa junina.
Nem entre descansar e continuar merecendo existir.
E porque máquina nenhuma sente culpa por chegar atrasada.
Mas mãe sente.
Mesmo quando chega.



