Produção de mandioca cresce, mas mercado segue pressionado por desafios de armazenamento e preços voláteis

Aumento da oferta e recomposição parcial de estoues trazem novo cenário para a cadeia da mandioca, enquanto indústria mantém atenção à safra e ao clima

Da Redação

O mercado brasileiro de mandioca atravessa um período de reequilíbrio em 2026. Após registrar crescimento da produção e uma recuperação parcial dos estoques em algumas regiões, o setor ainda convive com um dos principais entraves históricos da cadeia: a impossibilidade de armazenar a raiz fresca por longos períodos, característica que mantém os preços sensíveis às oscilações entre oferta e demanda.

O cenário atual combina maior disponibilidade de matéria-prima com uma demanda industrial que continua sustentando boa parte da atividade econômica ligada à cultura. Apesar disso, especialistas avaliam que a volatilidade permanece presente e pode ser intensificada por fatores como clima, produtividade e ritmo de colheita.

Dados acompanhados pelo Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea/Esalq) indicam que a mandioca possui uma dinâmica diferente da observada em outras commodities agrícolas. Como a raiz precisa ser processada rapidamente após a colheita, produtores e indústrias ficam mais expostos aos períodos de excesso ou escassez de oferta.

Essa característica influencia diretamente a formação dos preços ao longo do ano. Durante os meses de maior colheita, as cotações tendem a recuar diante do aumento da disponibilidade do produto. Já nos períodos de entressafra, a redução da oferta costuma favorecer a recuperação dos valores pagos ao produtor.

A produção nacional permanece concentrada em polos industriais do Centro-Sul. Estados como São Paulo, Mato Grosso e Paraná respondem por parcela significativa da produção brasileira, direcionada quase integralmente para a fabricação de fécula e amidos modificados utilizados por diferentes segmentos industriais.

Nas regiões Norte e Nordeste, por outro lado, a mandioca mantém forte ligação com o consumo alimentar. A produção é destinada principalmente à fabricação de farinha, farofa e outros produtos tradicionais que fazem parte da cultura alimentar local.

Segundo o diretor de novos negócios da Lorenz, Aleksandro Siqueira, essa diferença regional ajuda a explicar o funcionamento da cadeia produtiva no país. Enquanto algumas regiões operam com foco predominantemente industrial, outras mantêm a mandioca como produto essencial para abastecimento alimentar.

Nos últimos anos, indicadores do setor apontaram crescimento da produção em determinadas regiões, acompanhado por aumento dos estoques industriais. Em alguns polos produtivos, a expansão foi atribuída ao avanço da produtividade e à ampliação de áreas cultivadas, fatores que contribuíram para ampliar a oferta de matéria-prima às fecularias.

Mesmo com esse avanço, especialistas ressaltam que a mandioca continua sendo uma cultura altamente dependente das condições climáticas e das decisões de plantio tomadas meses antes da colheita. Como o ciclo produtivo pode ultrapassar um ano e, em alguns casos, chegar a dois anos, a capacidade de reação do mercado é limitada diante de mudanças repentinas na demanda.

Os reflexos dessa dinâmica são observados principalmente nos estados com forte presença industrial. Paraná e Mato Grosso do Sul, por exemplo, costumam registrar maior disputa pela matéria-prima, fator que influencia diretamente os preços pagos aos produtores. Em regiões com menor concentração de fecularias, as cotações tendem a sofrer menor pressão compradora.

A recomposição parcial dos estoques observada em 2026 trouxe algum alívio para a indústria, mas ainda não eliminou a vulnerabilidade do setor diante de eventos climáticos ou oscilações de produtividade. Na avaliação de analistas do mercado, qualquer alteração significativa na oferta continua tendo potencial para impactar rapidamente toda a cadeia.

Apesar dos desafios estruturais, as perspectivas para os próximos meses permanecem positivas. A demanda por fécula, amidos modificados e outros derivados industriais segue sustentando investimentos e incentivando a produção em importantes regiões agrícolas do país.

Mais do que um alimento tradicional, a mandioca consolidou espaço como matéria-prima estratégica para diversos segmentos da indústria brasileira. Esse movimento tem ampliado a relevância econômica da cultura e reforçado seu papel dentro do agronegócio nacional, mesmo em um mercado que continua marcado pela necessidade de equilibrar produção, processamento e abastecimento ao longo do ano.

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