Coluna Entre Turnos

Por Viviane Uga

O Valor que não existe

Na infância, a gente aprende que o mundo é perigoso. Não exatamente pelos perigos reais, mas pelos perigos cuidadosamente organizados pelos adultos, que sempre tiveram um talento especial para a ficção. Existe o homem do saco, que aparentemente tem uma agenda mais eficiente que a de muita autoridade pública, e a teoria incontestável de que tomar chuva causa gripe, sustentada por gerações com a mesma convicção de quem nunca precisou provar nada.

Essas histórias têm uma função. Servem para manter crianças vivas, relativamente limpas e, de preferência, por perto. É um tipo de pedagogia prática, onde o medo entra como ferramenta didática. Nada muito sofisticado, mas funciona.

O curioso é quando a gente cresce e descobre que alguns desses mitos não foram feitos para a infância. Foram feitos para durar.

A virgindade, por exemplo.

Diferente do homem do saco, ninguém nunca teve coragem de admitir que era invenção. Pelo contrário, ela foi promovida. Ganhou status, importância, quase um cargo oficial na vida das mulheres. Uma coisa séria. Delicada. Quase sagrada. Daquelas que não se discute muito, só se respeita, como certas regras de família que ninguém lembra quem criou, mas todo mundo segue.

A ideia é simples, o que já é um indício de problema. Existe algo que a mulher “tem”. Um tipo de selo invisível que, misteriosamente, define seu valor antes e depois de um determinado momento. Como se fosse possível organizar a vida em duas prateleiras bem arrumadas. Antes, tudo certo. Depois… bom, depois já não é bem a mesma coisa.

O detalhe inconveniente é que ninguém nunca conseguiu mostrar exatamente o que é esse “algo”. Tentaram resolver isso com o tal do hímen, uma espécie de testemunha ocular que deveria confirmar o acontecimento. Mas o corpo feminino, com uma certa falta de espírito de colaboração, resolveu não seguir o roteiro. Tem hímen que não rompe, tem hímen que nem está lá, tem primeira vez que não sangra, tem segunda, terceira, quarta que também não. Um caos organizacional.

Mas a sociedade não é de se abalar com esses detalhes técnicos. Ela acredita. E acredita com uma firmeza que a ciência raramente consegue alcançar.

Porque no fundo nunca foi sobre o corpo. Foi sobre controle. Sobre organizar expectativas, comportamentos e, principalmente, narrativas. A virgindade funciona como uma espécie de certificado imaginário que todo mundo finge enxergar. E o mais impressionante é que funciona.

Meninas crescem ouvindo que precisam cuidar disso. Preservar. Guardar. Como se estivessem administrando um bem valioso, embora ninguém consiga explicar exatamente onde ele fica ou como se perde. Ainda assim, o risco é enorme. As consequências, maiores ainda.

Histórias não faltam. Mulheres julgadas, punidas, reduzidas a um único momento, como se a vida inteira pudesse ser resumida a um episódio específico, geralmente mal explicado e, muitas vezes, mal vivido. Porque há também esse detalhe pouco comentado: a tal da primeira vez, vendida como um evento memorável, costuma ser… decepcionante.

Desconfortável, às vezes dolorosa, frequentemente constrangedora. Um acontecimento cercado de expectativa, mas que raramente entrega o que prometeu. Como certos filmes muito recomendados que, no final, deixam a sensação de que você não entendeu o entusiasmo geral.

Talvez porque não tenha sido pensado exatamente para quem vive a experiência. Para muitos homens, ainda carrega um certo ar de conquista, uma narrativa que rende histórias, risadas e, dependendo do público, até prestígio. Para muitas mulheres, é mais um ajuste de realidade. Uma espécie de “ah, era isso”.

E então acontece a mágica social: a partir desse momento, algo muda. Não no corpo, não necessariamente na experiência, mas no olhar. Aquela mesma pessoa passa a ocupar outro lugar. Já não é mais “a mesma”. Uma mudança simbólica tão poderosa que dispensa qualquer evidência concreta.

É curioso como um conceito tão frágil consegue sustentar expectativas tão pesadas.

E mais curioso ainda é como ele continua sendo transmitido com a mesma naturalidade das histórias da infância. Sem muito questionamento, sem revisão, sem atualização. Como se o mundo tivesse avançado em tudo, menos nisso.

Talvez porque certas ideias, quando são muito úteis, não precisam fazer sentido.

Por isso, entre todos os mitos que a gente aprende quando é pequeno, esse talvez seja o único que realmente mereça ser aposentado. Não porque assusta, mas porque limita. Não porque protege, mas porque condiciona.

O homem do saco, pelo menos, desaparece com o tempo.

Esse aqui, não.

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