Especialista aponta impactos físicos, mentais e sociais e reforça que não existe consumo seguro de bebida alcoólica

Por Karol Peralta
O consumo de bebidas alcoólicas tende a crescer durante as festas de fim de ano, impulsionado por confraternizações e encontros familiares. Segundo a psiquiatra Alessandra Diehl, membro do conselho consultivo da Associação Brasileira de Estudos do Álcool e Outras Drogas (Abad), esse aumento potencializa riscos à saúde física, à saúde mental e às relações sociais, além de ampliar situações de perigo, especialmente envolvendo crianças e adolescentes.
Não existe consumo seguro de álcool
A especialista destaca que não há quantidade segura de álcool. Documentos recentes ratificados pela Organização Mundial da Saúde (OMS) reforçam que qualquer ingestão pode trazer prejuízos ao organismo.
Entre os problemas mais frequentes neste período estão quedas, intoxicações e a redução da supervisão de crianças em ambientes onde há adultos alcoolizados.
“É muito comum que, nessa época, os pronto-atendimentos pediátricos recebam casos de crianças que ingerem bebida alcoólica por falta de supervisão adequada”, afirma.
Agressividade, conflitos e mistura com medicamentos
Outro ponto de atenção é o aumento de episódios de agressividade, conflitos familiares e comportamentos de risco. Segundo a psiquiatra, o álcool compromete o juízo crítico e pode levar a decisões perigosas.
“A pessoa acaba se colocando em situações como dirigir sob efeito de álcool, além do aumento da agressividade e de conflitos dentro da família”, explica Alessandra Diehl. Ela também alerta para os riscos da mistura de álcool com medicamentos, prática comum em períodos festivos.
Risco maior de recaídas no fim de ano
Para pessoas que já enfrentam problemas relacionados ao álcool, o fim de ano é considerado um período especialmente delicado. A oferta constante de bebidas e a glamourização do consumo de álcool aumentam o risco de recaídas.
“A bebida não pode ser a protagonista das festas. Quando o álcool é colocado no centro das celebrações, isso pode se tornar um gatilho para pessoas emocionalmente vulneráveis”, ressalta a psiquiatra.
Impactos na saúde mental
A especialista também chama atenção para os efeitos do álcool sobre a saúde mental. Muitas pessoas recorrem à bebida como forma de lidar com sentimentos de tristeza, ansiedade e frustrações comuns nessa época do ano.
“O álcool funciona como uma espécie de anestesia momentânea, mas pode agravar quadros de ansiedade e depressão já existentes”, afirma.
Álcool e juventude: consumo cresce entre adolescentes
Outro dado que preocupa especialistas é o aumento do consumo entre adolescentes. O 3º Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III), divulgado em setembro de 2025, aponta que, enquanto o consumo entre adultos diminuiu, o uso de álcool entre menores de idade cresceu.
Na população adulta, a proporção de pessoas que consomem álcool caiu de 47,7% em 2012 para 42,5% em 2023. Já o consumo pesado de álcool entre adolescentes aumentou de 28,8% para 34,4% no mesmo período.
“Não existe ‘beber com moderação’ para adolescentes. Além de ser proibido por lei, o cérebro ainda está em desenvolvimento e pode ser impactado pelo álcool”, afirma Alessandra Diehl.
Papel das famílias na prevenção
A psiquiatra critica a postura de famílias que permitem ou incentivam o consumo dentro de casa. Para ela, a prevenção passa por mensagens claras e por uma presença familiar mais ativa.
“Dizer que é melhor o adolescente beber sob supervisão é uma fala equivocada. É possível estabelecer limites e deixar claro que o álcool não deve ocupar o centro das celebrações”, conclui.





