Pesquisa com dados do CadÚnico, Sinasc e Sisvan revela déficit de crescimento em regiões vulneráveis e aumento do sobrepeso infantil no Brasil

Da Redação
Crianças indígenas e de alguns estados do Nordeste apresentam, em média, estatura inferior à referência recomendada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A conclusão faz parte de um estudo publicado em 22 de janeiro de 2026 na JAMA Network, com base na análise de dados de cerca de 6 milhões de crianças brasileiras desde o nascimento até os 9 anos de idade.
A pesquisa contou com participação de especialistas do Centro de Integração de Dados e Conhecimentos para Saúde (Cidacs), da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz Bahia), e aponta que fatores como dificuldades no acesso à saúde, alimentação inadequada, maior incidência de doenças, baixo nível socioeconômico e condições ambientais precárias estão entre os principais determinantes do déficit de crescimento.
Segundo os pesquisadores, os resultados não indicam que todas as crianças indígenas ou do Norte e Nordeste possam ser classificadas como de baixa estatura, mas mostram que a proporção é maior nessas populações em comparação a outras regiões.
Padrão da OMS e análise dos dados
O padrão internacional da OMS para crianças até 9 anos é baseado em curvas de crescimento (escore-z), que avaliam peso e altura em relação a parâmetros considerados saudáveis.
Aos 9 anos, por exemplo, meninos devem pesar entre 23,2 kg e 33,8 kg e medir de 124 cm a 136 cm. Meninas apresentam peso médio entre 23 kg e 33 kg, com altura entre 123 cm e 135 cm.
Para chegar aos resultados, o estudo cruzou informações do Cadastro Único para Programas Sociais (CadÚnico), do Sistema de Informação sobre Nascidos Vivos (Sinasc) e do Sistema de Vigilância Alimentar e Nutricional (Sisvan). Os dados são administrativos e passaram por processos de anonimização, sem identificação individual.
Foram avaliados peso, estatura e adequação desses indicadores aos parâmetros internacionais, considerando também as condições socioeconômicas das famílias cadastradas.
Sobrepeso avança, mesmo em áreas vulneráveis
O estudo também identificou que cerca de 30% das crianças brasileiras apresentam sobrepeso ou estão próximas dessa condição. O indicador foi calculado com base no Índice de Massa Corporal (IMC).
Em termos populacionais, a pesquisa aponta que não há predominância de subnutrição no país. Ao contrário, regiões como Sul, Sudeste e Centro-Oeste registram prevalência elevada de excesso de peso infantil.
Os dados mostram que, de forma geral, as crianças brasileiras acompanham a referência internacional de altura, o que indica crescimento linear adequado na média nacional. No entanto, em algumas regiões, o peso já supera o esperado para a idade.
Especialistas alertam que o excesso de peso também está relacionado às condições em que a criança nasce e à qualidade do acompanhamento pré-natal e pós-natal. A atenção primária à saúde e a alimentação adequada são apontadas como fatores centrais para garantir desenvolvimento saudável.
Outro ponto destacado é o aumento do consumo de alimentos ultraprocessados, considerado um dos principais determinantes do avanço da obesidade infantil no Brasil.
Brasil em nível intermediário na América Latina
Pesquisadores internacionais que comentaram o estudo destacaram que, embora o sobrepeso infantil seja uma preocupação crescente no Brasil, o cenário é considerado intermediário em comparação com outros países da América Latina.
Segundo a análise, países como Chile, Peru e Argentina apresentam índices mais elevados de obesidade infantil. Ainda assim, os dados brasileiros reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à redução das desigualdades sociais e à promoção da alimentação saudável desde a primeira infância.





