Lula diz que não tem pressa em aplicar Lei da Reciprocidade contra os EUA, mas cobra negociação sobre tarifaço de 50%

Presidente afirma que Brasil já notificou os Estados Unidos sobre retaliação comercial; Camex iniciou processo após sobretaxa que atinge 35,6% das exportações brasileiras

Por Karol Peralta

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva afirmou nesta sexta-feira (29) que “não tem pressa” para aplicar a Lei da Reciprocidade contra os Estados Unidos, mas ressaltou que o processo precisa avançar como forma de pressionar o governo norte-americano a negociar o tarifaço de 50% imposto sobre produtos brasileiros.

A legislação, aprovada pelo Congresso e sancionada em abril, autoriza o Brasil a responder a medidas unilaterais de outros países contra suas exportações. A Câmara de Comércio Exterior (Camex) já iniciou o processo, que inclui a notificação oficial aos Estados Unidos.

“Eu não tenho pressa de fazer qualquer coisa com a reciprocidade contra os Estados Unidos. Tomei a medida porque eu tenho que andar o processo”, declarou Lula em entrevista à Rádio Itatiaia, em Belo Horizonte.

Tarifaço contra o Brasil

A sobretaxa norte-americana faz parte da política comercial adotada pela Casa Branca desde o governo Donald Trump, que elevou tarifas de importação em resposta a déficits comerciais e disputas envolvendo grandes empresas de tecnologia.

Inicialmente, em abril, a tarifa sobre produtos brasileiros foi fixada em 10%. Em agosto, porém, uma nova medida elevou a taxa em mais 40%, totalizando 50% sobre 35,6% das exportações brasileiras para os EUA. Segundo Trump, a decisão foi uma retaliação às medidas brasileiras e ao julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro, acusado de tentar um golpe de Estado após as eleições de 2022.

Lula reafirmou que o Brasil tem soberania para responder, mas disse preferir o diálogo:

“Nós temos que dizer para os Estados Unidos que temos coisas para fazer contra eles. Mas eu não tenho pressa, porque eu quero negociar. Se o Trump quiser negociar, o Lulinha paz e amor está de volta”, afirmou.

O presidente destacou ainda que o vice-presidente Geraldo Alckmin, o ministro da Fazenda Fernando Haddad e o chanceler Mauro Vieira lideram as tentativas de negociação, mas até agora não obtiveram resposta do governo norte-americano.

Paralelo com a pandemia

Lula também comparou a situação atual à pandemia de covid-19, quando a Organização Mundial do Comércio (OMC) e o Congresso permitiram flexibilizações para que países respondessem rapidamente a medidas unilaterais.

Crime organizado em combustíveis

Durante a mesma entrevista, o presidente comentou as recentes operações policiais contra facções criminosas que atuam na cadeia produtiva de combustíveis para lavagem de dinheiro.

Segundo ele, a investigação representa “a operação mais importante da história” para atingir o chamado “andar de cima” do crime organizado.

“Por enquanto só iam no andar de baixo. Agora, nós queremos saber quem faz parte do crime organizado. Quem fizer, vai aparecer”, disse Lula.

O presidente destacou que as facções funcionam como multinacionais do crime, com ramificações no Brasil e no exterior, infiltradas em setores como política, futebol e Judiciário.

As investigações revelaram um esquema sofisticado de ocultação de patrimônio ilícito por meio de fundos de investimento e fintechs, com indícios de ligação com organizações criminosas internacionais. A Justiça Federal determinou o bloqueio de bens e valores de investigados, no valor de até R$ 1,2 bilhão, já correspondentes a autuações fiscais realizadas.

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