Produção industrial perde ritmo no segundo semestre e sente impacto da política monetária restritiva

Por Karol Peralta
A indústria brasileira encerrou 2025 com crescimento de 0,6%, pressionada pelo patamar elevado da taxa básica de juros (Selic), que freou investimentos e consumo nos últimos meses do ano. Apesar da desaceleração, o resultado marca o terceiro ano consecutivo de expansão da produção industrial no país, segundo dados divulgados nesta terça-feira (3) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Indústria perde força no segundo semestre de 2025
A perda de ritmo ficou evidente na comparação entre os dois semestres do ano. De janeiro a junho, a produção industrial acumulou alta de 1,2% frente ao mesmo período de 2024. Já entre julho e dezembro, a variação foi nula (0%).
No recorte mais recente, de setembro a dezembro, o setor registrou queda de 1,9%, evidenciando o impacto mais forte da política monetária restritiva no fim do ano.
Em dezembro, a produção das indústrias brasileiras recuou 1,2%, o pior resultado desde julho de 2024 (-1,5%). Dos últimos quatro meses de 2025, três tiveram retração e apenas outubro apresentou estabilidade.
Patamar ainda distante do pico histórico
Mesmo com crescimento no acumulado do ano, a indústria brasileira permanece 16,3% abaixo do pico histórico, registrado em maio de 2011. Em relação ao período pré-pandemia, o setor opera apenas 0,6% acima de fevereiro de 2020.
Desempenho por setores industriais
Em 2025, duas das quatro grandes categorias econômicas apresentaram crescimento:
- bens de consumo duráveis: 2,5%
- bens intermediários: 1,5%
Por outro lado, houve retração em:
- bens de consumo semi e não duráveis: -1,7%
- bens de capital (máquinas e equipamentos): -1,5%
Das 25 atividades industriais pesquisadas pelo IBGE, 15 registraram avanço, com destaque para as indústrias extrativas, que cresceram 4,9%, e o setor de produtos alimentícios, com alta de 1,5%.
Ainda assim, apenas 49,6% dos 789 produtos analisados tiveram aumento na produção ao longo do ano.
Juros altos travam investimentos e consumo
Segundo o gerente da pesquisa do IBGE, André Macedo, a desaceleração da indústria no fim de 2025 está diretamente ligada ao patamar elevado da Selic.
“Os juros altos têm esse caráter de diminuir a intensidade da economia, e o setor industrial está nesse contexto”, explicou.
Com crédito mais caro, empresas tendem a adiar investimentos, enquanto as famílias reduzem o consumo, especialmente de bens duráveis, como veículos e eletrodomésticos. A elevação da inadimplência também contribuiu para o cenário mais cauteloso.
Um dos exemplos foi a produção de veículos automotores, que caiu 8,7% em dezembro, a maior pressão negativa do mês. O IBGE também apontou aumento de férias coletivas e paralisações nas fábricas no fim do ano.
Política monetária e inflação no centro do debate
Em setembro de 2024, diante da aceleração da inflação, o Comitê de Política Monetária (Copom) iniciou um ciclo de alta da Selic, que saiu de 10,5% ao ano e chegou a 15% em junho de 2025, patamar mantido até o fim do ano.
A meta oficial de inflação é de 3%, com tolerância de 1,5 ponto percentual para mais ou para menos. O IPCA permaneceu 13 meses fora do intervalo de tolerância, praticamente durante todo o ano de 2025.
Apesar do efeito restritivo dos juros sobre a atividade econômica, o país encerrou 2025 com a menor taxa de desemprego da série histórica, segundo dados divulgados pelo IBGE na última sexta-feira (30).





