Presidente do hospital atribui atraso a desequilíbrio financeiro e fala em tentativa de empréstimo para quitar cerca de R$ 14 milhões

Por Karol Peralta
Com o auditório lotado e sob gritos de “cadê nosso dinheiro?”, funcionários da Santa Casa de Campo Grande paralisaram parcialmente as atividades nesta semana para cobrar o pagamento do 13º salário, que segue em atraso. Durante reunião com trabalhadores, a presidente da instituição, Arli Terra Lima, afirmou que a situação é resultado do desequilíbrio econômico-financeiro do contrato do hospital, que recebe menos recursos do que a demanda atendida.
Segundo a direção, o valor necessário para quitar o benefício gira em torno de R$ 14 milhões. Arli afirmou que a administração busca alternativas, incluindo a contratação de um empréstimo, para realizar o pagamento, mas destacou que o processo não ocorre de forma imediata.
Paralisação reúne profissionais da saúde e setores administrativos
A mobilização envolveu enfermeiros, técnicos de enfermagem, médicos e funcionários dos setores administrativo e de limpeza. De acordo com os sindicatos das categorias, cerca de 70% do efetivo permaneceu em atividade, enquanto o restante aderiu ao movimento paredista desde as primeiras horas do dia.
Os manifestantes realizaram caminhada, utilizaram cartazes e se concentraram no saguão da Santa Casa, reivindicando o pagamento imediato do benefício. A paralisação ocorre em um dos principais hospitais públicos do Estado, responsável por atendimentos de alta complexidade.

“Escolha de Sofia”, diz presidente
Durante sua fala aos trabalhadores, Arli Terra Lima afirmou que a instituição enfrenta dificuldades financeiras históricas. “Estamos na ‘Escolha de Sofia’: ou guardava dinheiro para o 13º ou deixava morrer gente na Santa Casa”, disse, ao explicar que a falta de equilíbrio ao longo dos anos inviabiliza a formação de caixa suficiente no fim do ano.
A presidente afirmou que assumiu a gestão da Santa Casa em janeiro de 2023 e que, ainda naquele mês, comunicou ao Ministério Público de Mato Grosso do Sul (MPMS) sobre as tratativas em curso para reequilíbrio econômico do contrato, iniciadas em 2022.
Decisão judicial amplia repasse mensal
Segundo Arli, após anos de negociações, a instituição ingressou com ação judicial neste ano. No dia 17 de dezembro, o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) determinou a ampliação do repasse mensal ao hospital, elevando o valor em cerca de R$ 3,3 milhões.
A decisão, proferida em segundo grau pelo desembargador José Eduardo Neder Meneghelli, corrigiu cálculo definido anteriormente pela 2ª Vara de Fazenda Pública e de Registros Públicos. A direção do hospital avalia que a medida ajuda a aliviar o déficit, mas não resolve de forma imediata a situação do 13º.
Impasse com repasse do Estado
De acordo com a presidente da Santa Casa, o pagamento do 13º salário tradicionalmente ocorre com base em um repasse contratual do Governo do Estado, previsto em acordo firmado com a Fehbesul (Federação dos Hospitais Filantrópicos e Beneficentes de MS). Ela destacou que o Estado não tem obrigação legal de arcar com o benefício.
Neste ano, o governo estadual informou que não poderia realizar o repasse em dezembro e propôs o pagamento em três parcelas, entre janeiro e março de 2026. Diante do cenário, a administração do hospital busca alternativas financeiras.
“A Santa Casa reconhece a legitimidade do movimento, mas os recursos são finitos”, afirmou Arli.
Sindicato contesta e mantém paralisação
Após a fala da presidente, o enfermeiro Lázaro Santana, presidente do Siems (Sindicato dos Trabalhadores na Área de Enfermagem de MS), afirmou que conversou com o secretário estadual de Saúde, Maurício Corrêa, e que a promessa é de que o recurso possa ser repassado até 25 de janeiro.
“Se está se falando que tem dinheiro para antecipar para janeiro, é porque tem dinheiro na conta”, disse Santana, sob aplausos dos manifestantes. Segundo ele, o movimento paredista será mantido até que o pagamento do 13º seja efetivado, com a intenção de levar a reivindicação ao governador Eduardo Riedel.
Ao fim da reunião, os funcionários reforçaram o pedido para que o pagamento seja realizado ainda hoje.





