Com mais da metade da população brasileira se declarando negra, os números revelam que a desigualdade racial permanece firme no mercado de trabalho, no sistema prisional, na violência e nas oportunidades sociais.

Por Karol Peralta
No Dia da Consciência Negra (20 de novembro), o Brasil é convidado a fazer um balanço profundo: embora pretos e pardos representem cerca de 55,4% da população, os dados mostram que essa maioria numérica ainda não se traduz em igualdade real a desigualdade racial se manifesta em taxas diferentes de desemprego, menor renda, encarceramento desproporcional e violência letal, evidenciando as barreiras estruturais que persistem na sociedade brasileira.
1. Contexto histórico e simbólico
O Dia da Consciência Negra remete à morte de Zumbi dos Palmares, em 20 de novembro de 1695, líder quilombola símbolo da resistência contra a escravidão. A data se consolidou como momento de reflexão sobre a herança da escravidão, o racismo sistêmico e a luta por justiça racial no Brasil contemporâneo.
2. Panorama demográfico
- Segundo o Censo Demográfico de 2022, mais de 110 milhões de brasileiros (pretos + pardos) se autodeclaram negros.
- A proporção de pretos cresceu de 7,6% (em 2010) para 10,2% da população total em 2022.
- Pardos também representam parcela significativa: 45,3% da população brasileira se declarou parda no censo.
- A autodeclaração negra (preta + parda) soma cerca de 55,5% da população.
Este crescimento do reconhecimento racial segundo o IBGE, pode indicar mais consciência identitária ou mudanças sociais que permitem mais pessoas se reconhecerem como negras.
3. Desemprego, mercado de trabalho e renda
- De acordo com o Ministério do Trabalho e Emprego, no 2º trimestre de 2024, a taxa de desemprego média nacional era de 6,9%; para mulheres negras, esse índice chegava a 10,1%, mais que o dobro da taxa para homens não negros (4,6%).
- A informalidade também é mais alta entre negros: segundo os dados da RAIS, 44,1% dos homens negros e 41% das mulheres negras ocupados estavam em empregos informais (sem registro, ou “conta própria” sem CNPJ).
- Quanto à renda, a Síntese de Indicadores Sociais (IBGE) aponta que o rendimento-hora de pretos/pardos era significativamente menor: trabalhadores brancos tinham rendimento estimado de R$ 20,10/hora, contra R$ 11,80/hora para pretos ou pardos, uma diferença de cerca de 61,4%.
- Além disso, o Dieese afirma que apesar de avanços no emprego formal e negociação salarial, a desigualdade de renda por raça ainda persiste fortemente.
4. Violência letal e segurança pública
- De acordo com o Atlas da Violência (Ipea / FBSP), em 2023, o risco de um negro ser vítima de homicídio era 2,7 vezes maior do que o de uma pessoa não negra.
- Em números absolutos, foram 35.213 negros assassinados no Brasil em 2023, segundo o Atlas.
- Outra fonte mostra que, em 2022, a taxa de homicídio entre pessoas negras foi cerca de 29,7 por 100 mil habitantes, enquanto para brancos, indígenas e amarelos juntos, foi 10,8 por 100 mil.
- Esses dados revelam que, embora haja uma tendência de queda em homicídios, a redução entre negros tem sido mais lenta e desigual em comparação a outros grupos raciais.
5. Sistema prisional e seletividade penal
- No sistema carcerário brasileiro, a população negra atingiu 68,2% em 2022, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública.
- Entre 2005 e 2022, a população negra encarcerada cresceu 381,3%, enquanto a população branca prisional cresceu “apenas” 215%, segundo análise do Fórum de Segurança Pública.
- Isso evidencia a seletividade penal racial: o sistema prisional, na prática, recruta desproporcionalmente corpos negros.
6. Discriminação cotidiana e racismo estrutural
- Uma pesquisa recente apontou que quase 85% da população preta afirma ter sofrido discriminação racial em sua vida, segundo dados apoiados pelo Ministério da Igualdade Racial.
- No Brasil, a discriminação racial não se limita à violência física: envolve exclusão econômica, falta de reconhecimento, e barreiras sistêmicas em oportunidades de trabalho, educação e moradia.
- Além disso, no sistema judiciário, dados do IPEA indicam que réus negros estão super representados em processos por tráfico de drogas: eles correspondem a 46,2% dos processos, número muito acima da proporção de brancos, o que sugere viés racial nas investigações.
7. Oportunidades, resistência e caminhos para a mudança
- Apesar desse quadro difícil, há sinais de mobilização crescente: movimentos negros, quilombolas e organizações de base usam o Dia da Consciência Negra para reivindicar políticas públicas mais eficazes, cotas raciais, educação antirracista, reforma no sistema penal, iniciativas de empreendedorismo negro, entre outras.
- Políticas afirmativas também têm impacto: estudos acadêmicos mostram que ações como cotas raciais em universidades podem gerar ganhos econômicos para beneficiários negros na carreira.
- A educação é uma ferramenta crucial: ampliar o acesso de jovens negros à universidade, ao mercado de trabalho formal e à cultura é parte essencial para romper as barreiras estruturais de longo prazo.
O Dia da Consciência Negra não é apenas uma celebração simbólica é um alerta constante sobre desigualdades persistentes que têm cor, gênero e história. As estatísticas mostram que a maioria populacional negra do Brasil convive com desvantagens profundas no emprego, na renda, na violência e na justiça. Reconhecer essas disparidades é o primeiro passo. Mas a verdadeira mudança exige ações estruturais: políticas públicas que garantam equidade, reparação histórica e inclusão real.





