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COLUNA ENTRE TURNOS

Por Viviane Uga
Nada extraordinário apenas o exercício de olhar o comum até que ele diga alguma coisa.

A nova embalagem da pílula vermelha

Outro dia me explicaram que existe um homem alfa.

Gosto quando me explicam coisas. A gente aprende muito sobre quem explica.

O homem alfa, pelo que entendi, é aquele que lidera, domina e, sobretudo, opina. Opina com segurança sobre tudo, o que resolve o problema de precisar entender alguma coisa antes. É uma vantagem evolutiva considerável.

Ele também tem um talento especial para classificar mulheres. Não pessoas, mulheres. Pessoas dão muito trabalho, mulheres podem ser organizadas em categorias. As de valor, as que já foram, as que não deveriam nem ter começado. É quase um serviço de utilidade pública, se você pensar bem. Evita enganos, desperdícios, pensamentos.

Nada disso é exatamente novo. A novidade é o acabamento.

Antes vinha com raiva. Hoje vem com edição.

Antes era grito. Hoje é dicção.

Antes era constrangedor. Hoje é apresentável.

A pílula vermelha fez um curso de marketing.

E foi aí que ela ficou interessante.

Porque, de repente, ela parou de falar de relacionamento e começou a falar de infância. Uma migração curiosa. Sai o bar, entra a maternidade. Sai a conquista, entra o desenvolvimento infantil. O mesmo impulso de controle, agora com trilha suave e vocabulário técnico.

Surgiram especialistas por todos os lados. Sempre muito serenos. Sempre muito seguros. Sempre muito certos de que o problema do mundo contemporâneo é uma mãe que não está suficientemente presente.

Suficientemente é uma palavra perigosa. Nunca vem com medida.

A mãe precisa estar. Precisa se dedicar. Precisa se revisar emocionalmente. Precisa garantir vínculo, estabilidade, segurança, presença, afeto e, se sobrar tempo, talvez um pouco de renda, mas sem comprometer o essencial.

O essencial, claro, é ela.

O curioso é que esse essencial nunca muda de endereço.

No Brasil, a maioria das mães trabalha. Não porque leram menos teoria, mas porque o supermercado insiste em cobrar. Algumas sustentam a casa inteira. Outras sustentam quase tudo. Muitas sustentam sozinhas, inclusive o silêncio.

Mas isso não costuma aparecer nos vídeos. Não ilumina bem.

O que aparece é a ideia. Limpa, elegante, confortável. A ideia de que, se a mãe fizer tudo certo, a criança será emocionalmente estável, segura e, quem sabe, até feliz. Uma promessa ambiciosa, considerando que nem os adultos estão conseguindo.

E quando essa promessa não se cumpre, o problema também já está resolvido.

Foi a mãe.

Sempre é.

Existe uma eficiência impressionante nisso. Não precisa impor nada. Basta sugerir. A mulher faz o resto. Ela escuta, absorve, reorganiza a própria vida e, de brinde, ainda se culpa pelo que não conseguiu reorganizar.

Enquanto isso, a estrutura permanece intacta. O trabalho segue mal distribuído. A responsabilidade segue concentrada. E o discurso segue elegante.

Quase ninguém fala de dependência financeira. É um tema antipático. Estraga a estética. Mas tem um efeito colateral inconveniente: quem depende, fica. Mesmo quando não deveria.

Mas isso não cabe no roteiro. Falta leveza.

No fim, a pílula vermelha não ficou mais bruta.

Ficou mais educada.

Aprendeu a dizer a mesma coisa com palavras que não assustam. Aprendeu a sorrir enquanto reduz. Aprendeu a culpar sem parecer que está culpando.

E funciona.

Funciona porque ninguém quer ser a mãe que falhou.

Então ela tenta mais.

Acorda mais cedo.

Dorme mais tarde.

Carrega mais.

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