Comunidade de Sikamabiu recebe primeira unidade demonstrativa que une recuperação ambiental, produção de alimentos e autonomia indígena

Por Karol Peralta
O silêncio que substituiu o barulho de dragas e motores na Terra Indígena Yanomami começa a dar lugar a um novo cenário. Na comunidade de Sikamabiu, na região do Baixo Mucajaí, o Governo do Brasil iniciou a implantação da primeira unidade demonstrativa de soberania alimentar, voltada à produção sustentável de alimentos, recuperação ambiental e fortalecimento da autonomia das comunidades indígenas, após a retirada de invasores ligados ao garimpo ilegal.
Localizada em uma área que abriga cerca de 30 famílias, reunindo quase 400 indígenas, Sikamabiu passa a ser referência de um modelo que busca garantir acesso regular a alimentos saudáveis, respeitando os modos de vida tradicionais e recuperando áreas degradadas pela exploração ilegal de ouro.
A unidade implantada na comunidade é a primeira de um conjunto de oito estruturas previstas para serem entregues ainda neste ano em diferentes regiões da Terra Indígena Yanomami. Técnicos envolvidos no projeto avaliam que a iniciativa representa um avanço concreto tanto na segurança alimentar quanto na reconstrução ambiental do território.
A pesquisadora da Embrapa Roraima, Rosemary Vilaça, que atua na região desde 2022, destaca que a iniciativa marca uma mudança profunda no uso do território. Segundo ela, áreas antes dominadas pelo medo e pela presença armada do garimpo passam agora a receber infraestrutura voltada à produção de alimentos e à sustentabilidade.
Estrutura integra produção de alimentos e recuperação ambiental
A unidade demonstrativa de soberania alimentar instalada em Sikamabiu reúne diferentes módulos de produção. Entre eles estão um aviário com 100 galinhas rústicas, um viveiro de mudas nativas com capacidade para 2 mil plantas, com destaque para açaí e cacau nativos, além de tanque de compostagem para produção de adubo natural.
O projeto também contempla roças tradicionais, com cultivo de mandioca, batata, arroz e outras culturas, além da implantação de Sistemas Agroflorestais (SAFs). Nesse modelo, espécies nativas, frutíferas e hortaliças são plantadas de forma integrada, com o objetivo de restaurar áreas degradadas pelo garimpo, multiplicar sementes tradicionais e garantir diversidade alimentar.
Outro destaque é a implantação de um tanque escavado de piscicultura, com 440 metros quadrados, que amplia a produção de proteína animal na comunidade.
Antigos açudes do garimpo viram criadouros de peixes
No contexto da piscicultura, dois açudes que antes eram utilizados pela atividade de garimpo ilegal foram recuperados e integrados ao sistema produtivo. Após testes técnicos, não foi identificada contaminação por mercúrio, permitindo o uso seguro das estruturas.
Somados ao tanque escavado, os açudes passaram a abrigar 4 mil alevinos, fortalecendo a produção local de pescado. A transformação de áreas degradadas em espaços produtivos é apontada como um dos principais resultados do projeto.
Investimento e parcerias viabilizam expansão do modelo
A implantação da unidade em Sikamabiu é resultado de uma articulação entre diferentes órgãos. O financiamento é do Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome (MDS), com investimento de R$ 90 mil apenas nesta unidade. A execução é feita pela Embrapa Roraima, com apoio logístico da Funai e participação do Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Roraima (IFRR).
Os recursos fazem parte de um Termo de Execução Descentralizada (TED) entre o MDS e a Embrapa, no valor total de R$ 1,8 milhão, que permitirá a implantação de outras sete unidades ainda em 2026, beneficiando 18 comunidades indígenas nas regiões de Surucucu, Homoxi, Xitei, Lasasi, Ajarani, Olomai e Uxiu.
Segundo técnicos da Embrapa, ao menos 11 outras comunidades já manifestaram interesse em receber o projeto. A Terra Indígena Yanomami possui 9,6 milhões de hectares e abriga cerca de 31 mil indígenas, sendo a maior terra indígena do Brasil em extensão territorial.
Piscicultura amplia produção de proteína animal
Além da unidade demonstrativa, a comunidade de Sikamabiu recebeu 10 tanques elevados de piscicultura, com 4 mil alevinos de tambaqui, destinados à criação e ao consumo local. A ação é coordenada pelo Ministério da Pesca e Aquicultura (MPA), em parceria com o IFRR.
Os tanques são feitos de geomembrana, tecnologia que aumenta a durabilidade e a eficiência da criação. Paralelamente, 34 indígenas da comunidade foram capacitados para atuar diretamente na produção, manejo e multiplicação do conhecimento técnico, garantindo autonomia no funcionamento do sistema.
A estimativa dos profissionais envolvidos é que a produção de peixes e aves na comunidade alcance cerca de 1 tonelada de proteína animal até o final de 2026.
Plano integra ações de reconstrução do território
As iniciativas fazem parte do Plano de Ação para o Desenvolvimento Sustentável da Terra Indígena Yanomami, liderado pela Funai, que reúne ações de diferentes ministérios com foco no bem viver dos povos Yanomami e Ye’kwana.
A agenda inclui ainda outras entregas no território e em Boa Vista, como a inauguração do Centro de Referência em Direitos Humanos Yanomami e Ye’kwana, voltado ao atendimento de demandas relacionadas a violações de direitos humanos, acesso a serviços essenciais e orientação sobre políticas públicas.





