Apesar da queda de 9,2% em 2025, mais de 500 mil crianças e adolescentes estavam envolvidos em atividades consideradas perigosas. Pesquisa revela desigualdades sociais e impactos na frequência escolar.

Da Redação
O Brasil encerrou 2025 com aproximadamente 1,5 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, o equivalente a 4% da população entre 5 e 17 anos. Embora o número represente uma redução de 9,2% em relação ao ano anterior, a realidade ainda preocupa: 525 mil estavam envolvidos em atividades classificadas entre as piores formas de trabalho infantil, com riscos à saúde, à segurança e ao desenvolvimento.
Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (16) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), por meio da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua.
Em 2024, o país contabilizava 1,65 milhão de crianças e adolescentes nessa condição. Já em 2016, eram 2,1 milhões. A redução acumulada em nove anos chegou a 28,6%, colocando o indicador no menor patamar da série histórica.
Apesar do avanço, os resultados mostram que o trabalho infantil permanece associado à vulnerabilidade econômica, às desigualdades sociais e às dificuldades de permanência na escola.
Mais de 500 mil enfrentam atividades de risco
Entre os 1,499 milhão de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, 525 mil exerciam ocupações enquadradas na Lista das Piores Formas de Trabalho Infantil (Lista TIP).
A classificação inclui atividades que colocam em risco a integridade física, a saúde e o desenvolvimento de crianças e adolescentes, além de formas graves de exploração, como trabalho escravo, exploração sexual e participação no tráfico de drogas.
O contingente representa aproximadamente 35% dos casos identificados pela pesquisa. Apesar disso, o número também apresentou redução em relação a 2024, quando 560 mil estavam nessas condições.
Outro dado chama atenção para a intensidade das jornadas. Entre crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil, 36,3% trabalhavam 25 horas ou mais por semana, enquanto 21,4% cumpriam jornadas de pelo menos 40 horas semanais.
Adolescentes de 16 e 17 anos são os mais atingidos
A pesquisa identificou maior concentração de trabalho infantil entre os adolescentes mais velhos.
Na faixa de 16 e 17 anos, aproximadamente 871 mil estavam nessa situação, representando 14,5% da população dessa idade. Entre os adolescentes de 14 e 15 anos, eram 348 mil casos.
Mesmo entre crianças de 5 a 13 anos, faixa etária em que a legislação proíbe o trabalho, o IBGE identificou 280 mil em atividades econômicas ou de produção para o próprio consumo.
A legislação brasileira permite o trabalho na condição de aprendiz a partir dos 14 anos. Aos 16 e 17 anos, determinadas atividades são autorizadas, desde que respeitadas as restrições legais, incluindo a proibição de trabalhos noturnos, perigosos e insalubres.
Trabalho infantil também afeta a permanência na escola
A relação entre trabalho precoce e educação aparece nos indicadores de frequência escolar.
Entre adolescentes de 16 e 17 anos em situação de trabalho infantil, apenas 79,6% frequentavam a escola. Na população total da mesma faixa etária, o percentual era de 89,6%.
A diferença também foi observada entre os adolescentes de 14 e 15 anos. Nesse grupo, a frequência escolar era de 95% entre aqueles submetidos ao trabalho infantil, abaixo dos 98,1% registrados na população geral da faixa etária.
Os números evidenciam a dificuldade de conciliar atividades de trabalho com a formação escolar, especialmente quando envolvem jornadas prolongadas.
Crianças e adolescentes pretos e pardos são maioria
As desigualdades raciais também aparecem nos resultados. Crianças e adolescentes pretos e pardos representavam 67% das pessoas em situação de trabalho infantil, embora correspondessem a 59,7% da população de 5 a 17 anos.
Os meninos eram maioria, com 65,4% dos casos, enquanto as meninas representavam 34,6%.
Regionalmente, o Sudeste concentrava o maior número absoluto de casos, com 481 mil, seguido pelo Nordeste, com 408 mil.
Em termos proporcionais, a Região Norte apresentava o índice mais elevado, com 6,3% das crianças e adolescentes nessa condição. O Sudeste registrava a menor proporção, de 3,3%.
Entre os setores econômicos, o comércio reunia 29% dos casos, seguido por atividades diversas, agricultura e pecuária, indústria e serviços de alojamento e alimentação.
Bolsa Família e aumento da renda podem ter contribuído para queda
Segundo o pesquisador do IBGE Gustavo Fontes, a redução do trabalho infantil está relacionada a diferentes fatores, entre eles políticas de proteção social, aumento da renda familiar e melhora dos indicadores do mercado de trabalho.
O Bolsa Família aparece como um dos possíveis elementos associados à redução dos casos.
Entre 2016 e 2025, o número de crianças e adolescentes em situação de trabalho infantil nas famílias beneficiárias do programa caiu 41%, percentual superior à redução de aproximadamente 29% registrada no conjunto da população.
Mesmo assim, a proporção de trabalho infantil entre os beneficiários permanecia ligeiramente acima da média nacional. Em 2025, o índice era de 4,4%, contra 4% na população total.
Os resultados indicam avanços no combate ao trabalho infantil, mas também mostram a permanência de desafios relacionados à renda, à proteção social e ao acesso à educação.
Embora o Brasil tenha registrado o menor contingente da série histórica, cerca de 1,5 milhão de crianças e adolescentes ainda estavam submetidos a atividades incompatíveis com sua idade ou com as condições previstas na legislação.



