Os adultos birrentos

Por Viviane Uga

Existe uma curiosa obsessão dos adultos pelas birras infantis.

A cena é conhecida. A criança se joga no chão do mercado porque queria um chocolate. Chora. Grita. Negocia com a intensidade de um diplomata em crise internacional. E imediatamente surge um adulto especialista em comportamento humano. Não estudou psicologia, pedagogia ou neurodesenvolvimento, mas tem certezas. Muitas certezas.

“A criança precisa aprender a respeitar.”

“Na minha época isso se resolvia rápido.”

“Está faltando limite.”

Curiosamente, essas sentenças costumam vir de pessoas que passam semanas sem falar com um irmão por causa de uma discussão sobre herança de uma panela. Ou de quem encerra amizades de vinte anos porque alguém votou diferente, discordou numa reunião ou não respondeu uma mensagem com a velocidade considerada adequada.

A criança quer um chocolate.

O adulto quer ter razão.

Ambos estão frustrados.

Mas apenas um deles recebe o diagnóstico de birrento.

Talvez porque a birra adulta seja mais sofisticada. Ela usa roupas sociais. Tem conta bancária. Dirige. Publica frases motivacionais nas redes sociais. Diferentemente da criança, não se joga no chão do supermercado. Apenas vira a cara, faz silêncio estratégico, cria ressentimentos de longo prazo e chama isso de maturidade.

A infância tem a elegância da honestidade.

Uma criança contrariada anuncia sua revolta ao mundo. O adulto contrariando transforma a própria mágoa em política externa. Rompe relações diplomáticas. Impõe sanções emocionais. Embarga afeto. Constrói muros onde antes havia portas.

E ainda se considera equilibrado.

O mais intrigante é que muitos desses adultos defendem a violência como método educativo. Acreditam que uma criança deve aprender respeito através do medo. Como se respeito fosse uma planta que florescesse sob pancadas.

É uma lógica curiosa.

O mesmo cidadão incapaz de resolver um conflito através de uma conversa acredita que uma criança de quatro anos deveria dominar habilidades emocionais que ele próprio não desenvolveu em quarenta.

Exige autorregulação de quem ainda está aprendendo a amarrar os sapatos.

Enquanto ele mesmo não consegue administrar uma opinião contrária sem transformar o outro em inimigo.

Talvez a verdade mais desconfortável seja esta: algumas crianças fazem birra porque ainda estão aprendendo a ser gente.

Alguns adultos fazem birra porque desistiram de aprender.

No fundo, o problema nunca foi o choro da criança no corredor do mercado.

O problema é o eco.

Porque, quando ela grita, muitos adultos escutam algo familiar.

E reconhecem, naquela pequena explosão de inconformismo, uma versão menos disfarçada de si mesmos.

Compartilhe esta postagem:

Facebook
Twitter
WhatsApp
Telegram

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

11 + um =

contato@mspantanalnews.com.br