Por Viviane Uga

A morte tem uma péssima estratégia de marketing.
Se apresentasse os dentes de vez em quando, talvez a levássemos mais a sério.
Mas ela trabalha em silêncio, com a discrição de um funcionário público perto da aposentadoria.
Não bate ponto, não avisa chegada, não manda “estou a caminho”.
Só chega.
E talvez por isso viver seja esse grande delírio coletivo: fingir que não sabemos.
A morte é a única certeza realmente democrática do planeta.
Não importa quantos seguidores você tem, quantos diplomas penduram sua parede, quantos litros de botox sustentam seu rosto ou quantas parcelas faltam no apartamento.
Ela vem.
Para todos.
Ainda assim, conseguimos o feito extraordinário de agir como se fôssemos exceção.
Quando somos jovens, a morte parece um boato distante.
Uma coisa que acontece em filmes europeus, hospitais frios ou no jornal das sete.
A juventude tem esse tipo de arrogância biológica.
O corpo responde rápido, a pele cicatriza, o coração aguenta desaforo.
Aos vinte, atravessamos a rua sem olhar.
Aos trinta, começamos a olhar para os dois lados.
Aos quarenta, pensam em fazer um check-up antes de atravessar.
Existe um momento exato da vida adulta em que a morte deixa de ser filosófica e vira logística.
Porque morrer, depois de certa idade, dá trabalho.
Quem vai cuidar dos filhos?
Tem dinheiro guardado?
A senha do banco está anotada?
Preciso fazer seguro de vida?
Escrever um documento?
Ensinar alguém a pagar as contas da casa?
Separar as fotos importantes?
Apagar o histórico do navegador?
A maturidade talvez seja isso: perceber que até para morrer existe burocracia.
E é curioso como o ser humano consegue viver permanentemente cercado pela morte sem realmente enxergá-la.
Ela está nos cabelos brancos surgindo no ralo do banheiro.
Na calça que já não serve.
Nos pais começando a repetir histórias.
Na farmácia virando parada obrigatória.
Nos aniversários que deixaram de parecer conquista e começaram a soar como velocidade.
Estamos todos morrendo.
Uns mais rápido. Outros mais devagar.
Mas ninguém exatamente parado.
O problema é que associamos morrer ao instante final, quando talvez a morte comece muito antes.
Em pequenas despedidas diárias.
Morre a versão da gente que acreditava em amores eternos aos quinze anos.
Morre o corpo que corria sem dor.
Morre a amizade que jurava durar para sempre.
Morre a avó e junto dela um idioma inteiro de afeto que ninguém mais fala igual.
Morre até quem continuou vivo, mas deixou de existir dentro da nossa rotina.
Talvez por isso envelhecer seja tão cansativo.
Não pelo peso dos anos.
Mas pelo acúmulo de funerais invisíveis.
E no entanto, apesar de tudo, seguimos fazendo planos para a próxima semana.
Compramos agendas para o ano seguinte.
Parcelamos viagens em doze vezes.
Plantamos árvores que talvez nunca veremos grandes.
Porque no fundo existe algo de profundamente bonito na ingenuidade humana.
Mesmo sabendo do fim, insistimos no começo.
A morte nos assusta porque interrompe.
Mas talvez o mais assustador seja justamente o contrário: perceber quantas pessoas passam pela vida sem nunca realmente começar.
Gente que adiou felicidade até sobrar tempo.
Que economizou perfume para uma ocasião especial que nunca veio.
Que guardou a louça bonita.
Que esperou emagrecer para usar a roupa.
Que esperou estabilidade, coragem, dinheiro, amor, segunda-feira.
A morte deve observar isso com certo deboche.
Porque ela, diferente de nós, sabe exatamente uma coisa:
não existe momento ideal.
Existe apenas o agora.
Esse instante pequeno, frágil e absolutamente temporário que estamos desperdiçando enquanto fingimos que somos eternos.



