Por Viviane Uga

Acordei numa segunda-feira e percebi que havia morrido.
Não era metáfora. Não era exagero hormonal. Não era “fase”. Era uma constatação seca, burocrática, quase administrativa. Como quem descobre uma taxa atrasada no aplicativo do banco.
Morri.
E o mais humilhante sobre morrer no puerpério é que ninguém interrompe o expediente por isso.
A morte não chegou com estardalhaço. Nada de trovões, músicas dramáticas ou corredores de hospital em câmera lenta. Veio mansa, coberta de rotina. Acordei como em qualquer outro dia: o mesmo céu pálido, a mesma luz entrando pela persiana, a mesma mamadeira pela metade em cima da mesa, a mesma roupa manchada que eu jurava ter trocado ontem.
Mas algo tinha ido embora.
E o que restou fui eu. Ou o que sobrou de mim.
Foi terrível perceber que eu havia partido sem sequer me despedir.
Como assim? Quando foi que aconteceu? Em que instante exato deixei de existir? Foi durante uma madrugada qualquer? Entre uma cólica do bebê e uma crise de choro silenciosa no banheiro? Foi quando parei de pentear o cabelo ou quando comecei a responder “tudo bem” automaticamente?
O puerpério é um fenômeno curioso. Você morre e continua responsável pelos boletos.
Ninguém avisa isso no chá de bebê.
As pessoas falam do quartinho, do enxoval, da amamentação, do “momento mágico”. Existe sempre uma tia emocionada dizendo que “ser mãe é padecer no paraíso”, frase criada claramente por alguém que nunca passou 17 dias sem dormir direito enquanto sangrava literalmente e emocionalmente por todos os poros.
O paraíso, descobri depois, tem cheiro de leite e um abraço quentinho.
Comecei a entender, entre os fiapos da lucidez, que tudo tinha terminado.
A mulher que fui desaparecera.
E no lugar dela ficou uma espécie de espectro funcional: alguém capaz de esterilizar mamadeiras em estado dissociativo enquanto pensava se ainda existia ali dentro.
Passei pelo inferno.
Não o mítico, de chamas e castigos. O inferno real. O das ausências. O das dores pequenas e contínuas. O da solidão cercada de gente dizendo “mas aproveita, passa tão rápido”.
Rápido para quem?
Porque para a mulher no puerpério, uma terça-feira às 15h47 pode durar sete anos.
Existe algo particularmente cruel em sofrer enquanto todos esperam gratidão luminosa de você. Você deveria estar radiante. Afinal, ganhou um bebê saudável. E ganhou mesmo. O problema é que junto vieram olheiras que atravessam dimensões, um colapso hormonal comparável à queda de uma civilização e a estranha sensação de que arrancaram sua pele emocional sem anestesia.
Fui esquecida antes de ser enterrada.
E ainda assim, mesmo podre, mesmo em ruínas, implorava por vida.
Suplicava por permanência. Por um vestígio de mim. Por alguém que perguntasse não “e o bebê?”, mas “e você?”. Embora eu provavelmente respondesse “tudo bem”, porque mulheres aprendem cedo a performar estabilidade mesmo enquanto afundam.
Mas a verdade é que morri.
E com a morte vem o esquecimento.
As pessoas esquecem os mortos. É natural. Cruel, mas natural.
A mulher que fui sem filhos desaparece primeiro. Depois desaparece a vaidade. Depois o silêncio. Depois o tempo. Depois o nome. Você vira “a mãezinha”. Uma entidade cansada carregando bolsas demais.
Apodreci na memória dos outros até começar a apodrecer na minha.
Continuei tentando viver, mesmo sem existência.
Continuei mendigando afeto, mesmo sendo um fantasma.
Até hoje.
Hoje eu entendi uma coisa terrível sobre o puerpério: ele não mata exatamente. Ele desmonta. Pega a mulher pelos tornozelos e a sacode até cair tudo o que ela acreditava ser.
E então, quando sobra apenas o osso emocional da criatura, alguém entrega um bebê no colo dela e diz:
“Agora sorri.”
E você sorri.
Porque o bebê precisa mamar.
Porque a roupa precisa lavar.
Porque o grupo da família mandou “bom dia” com girassóis brilhantes.
Porque o pediatra marcou retorno.
Porque acabou o sabonete.
Porque a vida, infelizmente, é profundamente desrespeitosa com quem está desmoronando.
A verdade é que ninguém sabe muito bem o que fazer com uma mulher no puerpério. Nem a própria mulher.
Ela fica ali, andando pela casa igual alma penada, com um coque torto e uma criança pendurada no peito, tentando lembrar onde colocou a própria personalidade.
Às vezes encontra.
Normalmente no fundo do cesto de roupa suja, entre um pano de boca endurecido e um sutiã sem alça que não serve mais.
E talvez essa seja a parte mais humilhante da história toda: o mundo continua absolutamente igual enquanto você implode em silêncio.
O caminhão do gás passa.
Os vizinhos brigam.
As contas vencem.
E você ali, emocionalmente falecida, tentando decidir se toma banho ou dorme por onze minutos.
Mas agora…
Agora não sei o que fazer com o corpo.



