Notas sobre um silêncio muito barulhento

por Viviane Uga

Dizem que toda grande crise começa com um sintoma pequeno. Um ruído. Um incômodo discreto, desses que a gente resolve com atenção, se houver interesse em prestar.
Mas essa pandemia não.
Essa pandemia começou justamente pela ausência disso: interesse.
É uma doença curiosa. Não afeta o ouvido. Exames seguem normais, tímpanos intactos, tudo funcionando perfeitamente bem. Ainda assim, milhões de homens ao redor do mundo desenvolveram um quadro persistente: a incapacidade seletiva de escutar mulheres.
Seletiva, veja bem. O problema nunca foi técnico. É editorial.
Os primeiros casos apareceram no ambiente corporativo, esse grande laboratório de testes sociais.
Uma mulher fala. Explica. Apresenta dados, caminhos, soluções. Silêncio. Cabeças baixas, celulares ativos, olhares vazios.
Minutos depois, um homem repete exatamente a mesma coisa, às vezes pior, e de repente acontece o milagre da audição coletiva.
Palmas. Concordâncias. Excelente ponto.
A ciência nomeou o fenômeno: Eco Masculino Apropriativo. A ideia não nasce duas vezes. Ela só ganha CPF quando sai da boca certa.
Nos registros, consta que a mulher já tinha dito aquilo antes. Mais de uma vez, aliás.
Mas ninguém ouviu.
Ou pior: ouviram e decidiram que não contava.
Nos lares, a doença assume uma forma mais íntima, quase doméstica, mas igualmente eficiente.
A mulher fala sobre divisão de tarefas. Explica, negocia, pede, implora, organiza. Há casos documentados de mulheres que chegaram ao estágio avançado da didática: planilhas, cronogramas, cores diferentes por responsabilidade.
Nada.
O homem, sempre muito surpreso com a própria ausência, reage semanas depois:
Mas você nunca me pediu ajuda.
A medicina ainda estuda esse subtipo, chamado Amnésia Auditiva Conveniente: o som chega, mas não se transforma em ação. É como se a responsabilidade fosse barrada na portaria.
Na política, o quadro se agrava.
Mulheres falam, constroem, articulam, propõem. São interrompidas não por falta de conteúdo, mas por excesso de incômodo.
Há homens que, diante da incapacidade de escutar, desenvolvem um comportamento compensatório curioso. Passam a falar por elas.
Explicam o que elas quiseram dizer.
Traduzem o que nunca esteve confuso.
Corrigem o que nunca esteve errado.
É um estágio avançado da doença. O paciente não escuta, mas se sente profundamente qualificado para substituir a voz que ignorou.
E então chegamos ao estágio mais perigoso.
Nas ruas, nas festas, nas madrugadas.
Uma mulher diz não.
Repete.
Aumenta o tom.
Afasta o corpo.
E ainda assim, há quem não escute.
Depois, o mesmo diagnóstico irresponsável:
Eu achei que ela queria.
Aqui, a doença abandona qualquer metáfora. Não é mais sobre escuta. É sobre poder.
Não é falha.
É escolha.
Os especialistas evitam generalizações, mas os dados são teimosos. Trata se de uma epidemia global, atravessando culturas, classes e gerações, e principalmente atravessando mulheres.
O mais preocupante é que ela não paralisa ninguém.
Pelo contrário.
Os afetados seguem trabalhando, liderando, opinando, decidindo. A escuta funciona perfeitamente, desde que o assunto seja eles mesmos.
O problema nunca foi não ouvir.
Foi decidir quem merece ser ouvido.
E então surge a pergunta, repetida há décadas, muitas vezes, ironicamente, ignorada:
Isso tem cura?
Dizem que sim.
Mas o tratamento é exigente. Inclui escutar sem interromper, reconhecer sem sequestrar, dividir sem ser lembrado, recuar sem dramatizar.
Ou seja, exige abrir mão de privilégios, o que, sabemos, costuma ter baixa adesão.
Há relatos de melhora.
Casos raros, quase experimentais, de homens que começam a escutar de verdade. Não apenas o som, mas o sentido. Não apenas a fala, mas o peso.
São promissores.
Mas ainda são poucos.
Enquanto isso, mulheres seguem falando.
Não porque acreditam que serão ouvidas.
Mas porque já entenderam que o silêncio sempre foi o verdadeiro objetivo dessa doença.
E, felizmente, esse a gente não entrega.

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