Laboratório Nacional de Astrofísica atua no desenvolvimento de instrumento-chave do ELT, o maior telescópio óptico do planeta, em construção no Chile.

Por Karol Peralta
Pesquisadores brasileiros participam do maior projeto da astronomia mundial da atualidade por meio do desenvolvimento de um instrumento científico que integrará o Extremely Large Telescope (ELT), em construção no deserto do Atacama, no Chile. A atuação nacional ocorre dentro do consórcio internacional Mosaic, com coordenação do Laboratório Nacional de Astrofísica (LNA), unidade de pesquisa vinculada ao Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI).
Sob responsabilidade do Observatório Europeu do Sul (ESO), o ELT deve ser concluído na próxima década e será o maior telescópio óptico e infravermelho do mundo, com um espelho primário de 39 metros de diâmetro. O equipamento permitirá observações sem precedentes sobre a formação das galáxias, a evolução do Universo e a origem dos elementos químicos.
Entre os instrumentos científicos previstos está o Mosaic, um espectrógrafo multi-objetos capaz de observar mais de 200 alvos simultaneamente, ampliando significativamente a capacidade de coleta e análise de dados astronômicos. É nesse contexto que o Brasil desempenha um papel estratégico.
Brasil no núcleo central do instrumento
O país integra o grupo responsável pela construção do núcleo central do espectrógrafo, conhecido como Instrument Core Subsystem (Icos), responsável por integrar todos os demais subsistemas do Mosaic. O Laboratório Nacional de Astrofísica e o Instituto de Astronomia, Geofísica e Ciências Atmosféricas da USP (IAG-USP) são cossignatários do consórcio internacional, que reúne instituições de 14 países.
O pesquisador do LNA Bruno Castilho coordena a engenharia de sistemas do Mosaic. Segundo ele, o Brasil lidera a equipe de projeto e desenvolvimento do Icos, cuja integração e testes devem ocorrer na nova infraestrutura de laboratórios do LNA, em construção no Parque Científico e Tecnológico de Itajubá (MG).
A participação no projeto também garante acesso de pesquisadores brasileiros ao ELT, fortalecendo a presença do país em pesquisas de ponta na astronomia mundial.
O papel dos espectrógrafos
Os espectrógrafos são instrumentos que decompõem a luz emitida por estrelas e galáxias em diferentes comprimentos de onda. A partir desses dados, os cientistas conseguem identificar elementos químicos, medir velocidades, distâncias e compreender a formação de estruturas cósmicas.
O Mosaic permitirá estudos detalhados sobre a formação das galáxias, a distribuição da matéria e a evolução química do Universo, desde seus primeiros bilhões de anos até a atualidade.
Equipe brasileira e investimentos
A equipe brasileira envolvida no projeto conta atualmente com 20 astrofísicos e dez engenheiros e tecnologistas, que atuarão tanto no desenvolvimento quanto no uso científico do instrumento. O projeto é liderado pela professora Beatriz Barbuy, da USP, e deve ampliar o número de profissionais ao longo das próximas etapas.
Os investimentos nesta fase do projeto são realizados com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (Fapesp). Para Bruno Castilho, a participação brasileira demonstra a maturidade científica e tecnológica alcançada pelo país.
Segundo o pesquisador, além da produção científica, o projeto contribui para a formação de engenheiros e estudantes, estimula a participação da indústria nacional e abre oportunidades em mercados internacionais de alta tecnologia.
Cronograma até a operação
Os trabalhos da equipe brasileira devem seguir até 2032, quando as partes desenvolvidas no Brasil serão enviadas para montagem na França. A previsão é que o Mosaic esteja em operação no ELT em 2038, consolidando uma colaboração científica de longo prazo.
Referência nacional em astronomia
Com sede em Itajubá (MG), o Laboratório Nacional de Astrofísica foi criado em 1985 e foi o primeiro laboratório nacional do Brasil. A instituição opera o Observatório do Pico dos Dias, em Minas Gerais, e coordena a participação brasileira em projetos internacionais como o Observatório Gemini e o Telescópio Soar, ambos no Chile e nos Estados Unidos.
Atualmente, o LNA é reconhecido como referência internacional em instrumentação científica para astronomia, com atuação na exportação de tecnologia de alto nível.





