Em artigo no New York Times, presidente brasileiro afirma que ataques unilaterais ameaçam a democracia, a paz global e a soberania dos povos

Por Karol Peralta
Em artigo publicado neste domingo (18) no jornal The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou os bombardeios dos Estados Unidos em território venezuelano e a captura do presidente do país, afirmando que as ações representam mais um episódio de erosão do direito internacional e da ordem multilateral construída após a Segunda Guerra Mundial.
Em texto publicado no The New York Times, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva classificou os recentes ataques dos Estados Unidos em território da Venezuela como um episódio que aprofunda a crise do multilateralismo e enfraquece o sistema internacional baseado em regras.
Segundo Lula, ações desse tipo representam “mais um capítulo lamentável da contínua erosão do direito internacional e da ordem multilateral estabelecida após a Segunda Guerra Mundial”. Para o presidente, grandes potências têm promovido ataques recorrentes à autoridade da Organização das Nações Unidas e de seu Conselho de Segurança.
O chefe do Executivo brasileiro afirmou que, quando o uso da força deixa de ser exceção e passa a ser regra na solução de disputas internacionais, a paz, a segurança e a estabilidade globais ficam ameaçadas. No artigo, ele também criticou a aplicação seletiva das normas internacionais.
“Se as normas são seguidas apenas de forma seletiva, instala-se a anomia, que enfraquece não apenas os Estados individualmente, mas o sistema internacional como um todo”, escreveu. Para Lula, sem regras coletivamente acordadas, não é possível construir sociedades livres, inclusivas e democráticas.
Democracia e soberania
No texto, Lula reconhece que chefes de Estado ou de governo, “de qualquer país”, podem e devem ser responsabilizados por atos que atentem contra a democracia e os direitos fundamentais. No entanto, ressalta que não cabe a outro Estado se arrogar o direito de fazer justiça de forma unilateral.
Segundo o presidente, ações unilaterais geram instabilidade, desorganizam o comércio e os investimentos, ampliam fluxos de refugiados e enfraquecem a capacidade dos países de enfrentar desafios transnacionais, como o crime organizado.
Lula afirma ser “particularmente preocupante” que esse tipo de prática esteja sendo aplicado à América Latina e ao Caribe, região que, segundo ele, busca a paz por meio da igualdade soberana das nações, da rejeição ao uso da força e da defesa da autodeterminação dos povos.
O presidente destacou ainda que, em mais de 200 anos de história independente, esta seria a primeira vez que a América do Sul sofre um ataque militar direto dos Estados Unidos.
Agenda regional e cooperação
Ao tratar do futuro da região, Lula afirmou que a América Latina e o Caribe, com mais de 660 milhões de habitantes, possuem interesses próprios e devem ter liberdade para construir relações internacionais em um mundo multipolar, sem imposições externas.
“No nosso entendimento, não seremos subservientes a empreendimentos hegemônicos”, escreveu, defendendo que a construção de uma região próspera, pacífica e plural deve orientar a atuação dos países latino-americanos.
O presidente também defendeu uma agenda regional positiva, capaz de superar diferenças ideológicas, com foco na atração de investimentos, geração de empregos, ampliação do comércio e no enfrentamento de problemas estruturais, como fome, pobreza e mudanças climáticas.
Sobre a Venezuela, Lula afirmou que o futuro do país deve permanecer nas mãos do próprio povo venezuelano, defendendo um processo político inclusivo conduzido internamente.
Relação com os Estados Unidos
No artigo, Lula afirmou que o Brasil e os Estados Unidos são as duas democracias mais populosas do continente americano e que a cooperação entre os países deve se concentrar em investimentos, comércio e combate ao crime organizado.
“Somente juntos podemos superar os desafios que afligem um hemisfério que pertence a todos nós”, concluiu.





