Protestos com tratores paralisam rodovias e ampliam pressão política sobre o governo francês às vésperas de votação na União Europeia

Por Karol Peralta
Agricultores franceses iniciaram, ainda antes do amanhecer desta quinta-feira (8), uma série de bloqueios nas estradas que dão acesso a Paris, em protesto contra o acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul. A mobilização, que se espalhou por pontos turísticos da capital, ocorre em meio ao temor de que a abertura comercial provoque uma entrada massiva de alimentos mais baratos no mercado europeu e agrave a crise no setor agrícola da França.
Tratores bloqueiam vias e causam congestionamentos
Dezenas de tratores obstruíram rodovias estratégicas que ligam Paris aos subúrbios e a outras regiões do país, incluindo a A13, que conecta a capital à Normandia. Segundo o ministro dos Transportes, os bloqueios provocaram cerca de 150 quilômetros de congestionamentos durante o horário de pico da manhã.
Manifestantes romperam barreiras policiais para entrar na cidade, avançando pela Champs-Élysées e bloqueando vias próximas ao Arco do Triunfo, enquanto forças de segurança tentavam conter o avanço e evitar confrontos diretos.
Reação ao acordo UE–Mercosul
Os protestos foram convocados por sindicatos de agricultores, que veem no acordo de livre comércio uma ameaça direta à produção local. A principal crítica é que o pacto com o bloco sul-americano pode inundar o mercado europeu com produtos agrícolas de menor custo, pressionando preços e reduzindo a competitividade dos produtores franceses.
“Estamos entre o ressentimento e o desespero. Há um sentimento de abandono, e o Mercosul é um exemplo disso”, afirmou um representante sindical à imprensa internacional durante a manifestação em Paris.
Pressão política sobre o governo Macron
A mobilização aumenta a pressão sobre o presidente Emmanuel Macron, um dia antes da votação do acordo comercial pelos Estados-membros da União Europeia. Sem maioria consolidada no Parlamento francês, qualquer desgaste adicional pode resultar em um voto de desconfiança contra o governo.
Historicamente, a França se posiciona como uma das principais opositoras do acordo com o Mercosul, mesmo após concessões negociadas nas últimas etapas. Até o momento, a posição final de Macron segue indefinida.
Divisão entre países europeus
Enquanto a França mantém resistência, países como Alemanha e Espanha apoiam o acordo, e a Comissão Europeia trabalha para conquistar o aval da Itália. Caso Roma confirme apoio, a União Europeia pode alcançar os votos necessários para aprovar o tratado com ou sem o respaldo francês.
Nesta semana, a Comissão anunciou a proposta de € 45 bilhões em financiamentos antecipados para agricultores no próximo orçamento plurianual do bloco, além da redução de tarifas de importação de alguns fertilizantes, numa tentativa de mitigar resistências internas.
Doença no gado também motiva protestos
Além do acordo comercial, os agricultores exigem o fim da política de abate compulsório de vacas adotada pelo governo em resposta à dermatite nodular contagiosa, doença viral altamente transmissível que afeta o gado. Os manifestantes consideram a medida excessiva e defendem a vacinação como alternativa.
As autoridades afirmaram que a polícia foi orientada a evitar confrontos. “Os agricultores não são nossos inimigos”, declarou um ministro do governo francês durante a operação de segurança.





