Documento reforça doutrina Monroe, indica ampliação da presença militar e política no continente e preocupa diplomatas pela postura mais assertiva e ideologizada de Washington.]

Por Karol Peralta
A nova Estratégia de Segurança Nacional dos Estados Unidos, adotada pelo presidente Donald Trump, pode transformar Washington em uma das principais fontes de instabilidade na América Latina, segundo apuração da CNN Brasil junto a integrantes do governo brasileiro.
A avaliação é de que a instabilidade já é percebida nas ameaças da Casa Branca de interferir politicamente e até militarmente na região para garantir seus interesses econômicos e estratégicos. O exemplo mais visível é a crise com a Venezuela, marcada pelo deslocamento de cerca de 15 mil militares americanos, ataques a embarcações suspeitas de tráfico e pela apreensão de um navio carregado com petróleo venezuelano.
A nova Estratégia de Segurança Nacional, divulgada na semana passada, resume os objetivos dos EUA no hemisfério em duas palavras: “alinhar e expandir” — indicando que Washington deve intensificar sua presença política, militar e econômica na América Latina. O documento menciona ainda a doutrina Monroe, formulada no século XIX, que defendia a região como área de influência direta dos Estados Unidos.
Para uma fonte que acompanha de perto os movimentos estratégicos no continente, a nova política representa uma “confirmação no papel” do que Trump já vinha fazendo desde o início de seu segundo mandato. Segundo essa análise, o presidente norte-americano estaria revertendo décadas de menor envolvimento com a América Latina, período que havia reduzido tensões e ampliado a autonomia regional.
Com a nova diretriz, cresce o temor de que Washington adote uma postura mais assertiva, guiada por interesses de segurança, comércio e contenção da China, sem oferecer propostas concretas para desafios estruturais da região. Outra fonte da área diplomática afirma que a estratégia apenas formaliza a visão de mundo de Trump, expressa desde sua campanha presidencial.
Apesar disso, o Brasil não seria alvo imediato de interferência direta, segundo interlocutores. Eles lembram que, quando Trump tentou elevar tarifas e impor sanções contra autoridades brasileiras, a diplomacia nacional conseguiu reverter o movimento por meio de negociação.
Outro observador ouvido pela CNN Brasil ressalta que o documento não traz qualquer linha sobre desenvolvimento regional, infraestrutura ou políticas sociais. Para ele, trata-se de uma agenda focada em conter adversários, reduzir a presença chinesa e tratar questões de drogas e imigração como ameaças unilaterais aos interesses dos Estados Unidos.
Essa leitura indica que Trump estaria ressuscitando uma versão explícita da doutrina Monroe, agora acompanhada de um “corolário Trump”, que legitimaria intervenções — inclusive militares — sempre que Washington considerar necessário. A diferença, segundo analistas, é que a doutrina original foi criada por uma potência em ascensão; a atual seria proclamada por um país em declínio relativo, preocupado com a China e enfrentando desgaste institucional interno.
Esse cenário, alertam fontes brasileiras, torna os EUA um ator mais impulsivo e imprevisível, capaz de ampliar tensões no continente. Assim, paradoxalmente, a nova estratégia pode transformar os Estados Unidos em um dos principais fatores de instabilidade para a América Latina hoje.





