Ferramenta reúne dados sobre clima, biodiversidade e desastres; novo sistema unifica informações e expõe queda nos investimentos ambientais após 2015

Por Karol Peralta
A população passou a ter acesso, a partir desta terça-feira (9), a um painel que detalha gastos climáticos do governo federal entre 2010 e 2023. A ferramenta interativa, criada por meio de parceria entre diferentes ministérios e o BID, reúne informações sobre investimentos em mudança do clima, biodiversidade e gestão de riscos e desastres.
O Painel Gastos Climáticos foi desenvolvido por Ministério do Planejamento e Orçamento (MPO), Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima e Ministério da Fazenda. A iniciativa surgiu após a criação de uma metodologia padronizada para identificar e acompanhar despesas federais nessas três agendas.
Segundo o levantamento, o Governo Central destinou R$ 782 bilhões ao tema no período analisado. A maior parte foi aplicada na agenda climática (R$ 421 bilhões), seguida pela proteção da biodiversidade (R$ 250 bilhões) e pelo gerenciamento de riscos e desastres (R$ 111 bilhões).
De acordo com o Planejamento, a ausência de um sistema unificado dificultava o diagnóstico e a avaliação das políticas públicas. Com o novo painel, será possível acompanhar a execução de programas como o Plano Clima e o Plano de Transformação Ecológica, além de verificar se os gastos estão alinhados às metas ambientais.
Mudanças no perfil dos investimentos
A análise revela dois ciclos distintos no financiamento de políticas climáticas. Até 2015, os números eram mais altos. A partir de então, ocorreu uma queda significativa, influenciada pelo aperto fiscal, pelo teto federal de gastos e pela interrupção do PAC entre 2020 e 2022. Outro fator apontado é o crescimento das emendas parlamentares, das quais menos de 5% foram destinadas ao clima.
Além da redução no volume, o tipo de despesa mudou. Os investimentos em adaptação e gerenciamento de riscos aumentaram de 24% em 2010 para quase 70% em 2023 — evidência de que os recursos passaram a focar respostas aos eventos extremos já em curso.
Na área de biodiversidade, o relatório identificou um paradoxo: gastos com impacto negativo superam os positivos. Obras de infraestrutura, como hidrelétricas, podem reduzir emissões, mas provocam danos irreversíveis a ecossistemas. O Ministério do Meio Ambiente afirma que cada ação deve ser analisada com “lentes da mitigação e redução de emissões”.
No eixo de desastres, os gastos cresceram diante da maior ocorrência de fenômenos extremos. A maior parte do orçamento é destinada à redução de riscos, enquanto áreas como governança e análise de riscos continuam com investimentos baixos.
O aumento das despesas com seguros rurais também pressiona o orçamento federal. Programas como o Proagro cobrem perdas financeiras de pequenos e médios produtores afetados por secas, geadas, granizo e pragas agravadas pelas mudanças climáticas.
Metodologia replicável e acesso público
A construção do painel levou quase dois anos e contou com a participação de órgãos técnicos, especialistas e entidades da sociedade civil, como o Observatório do Clima e o WRI Brasil. O método foi elaborado para ser replicado por estados, municípios e outros países.
O painel interativo e o relatório completo estão disponíveis no site do MPO e permitem acompanhar os detalhamentos de gastos por período, ministério e impacto ambiental. Um vídeo com tutorial também foi publicado para orientar o público.





