Pesquisa revela impacto econômico e social das bets, associando endividamento, depressão, suicídios e baixa arrecadação em comparação aos danos causados.

Por Karol Peralta
Um estudo inédito estima que os jogos de azar e apostas online — popularizados pelas chamadas bets — causam um prejuízo anual de R$ 38,8 bilhões ao Brasil, valor que inclui perdas econômicas e sociais relacionadas a suicídios, depressão, endividamento, gastos com saúde pública e afastamentos do trabalho.
Divulgada nesta terça-feira (2), a pesquisa A saúde dos brasileiros em jogo analisa os efeitos da expansão das apostas online e compara a arrecadação do setor com o tamanho dos danos gerados. O valor de R$ 38,8 bilhões equivale, por exemplo, a 26% a mais no orçamento do Minha Casa, Minha Vida ou 23% acima do gasto anual do Bolsa Família.
O levantamento é resultado de uma parceria entre o Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (Ieps), a organização Umane e a Frente Parlamentar Mista para Promoção da Saúde Mental, que reúne quase 200 parlamentares.
Crescimento acelerado e riscos sociais
Os pesquisadores apontam que o país registrou 17,7 milhões de apostadores em apenas seis meses e que cerca de 12,8 milhões de brasileiros já se encontram em situação de risco em relação às apostas online. Baseado em estudos internacionais, o relatório estima as perdas diretas e indiretas associadas ao setor:
- R$ 17 bilhões por mortes adicionais por suicídio
- R$ 10,4 bilhões por perda de qualidade de vida com depressão
- R$ 3 bilhões em tratamentos médicos para depressão
- R$ 2,1 bilhões com seguro-desemprego
- R$ 4,7 bilhões com encarceramento ligado a crimes
- R$ 1,3 bilhão em perda de moradia
Do total, 78,8% das perdas (R$ 30,6 bilhões) estão relacionadas a custos de saúde. O documento destaca que estudos recentes mostram associação entre transtorno do jogo, ansiedade, depressão e risco de suicídio, fenômenos agravados pela falta de regulação robusta.
Segundo o estudo, as bets já impactam o endividamento das famílias, ampliam casos de transtorno do jogo e intensificam quadros de sofrimento mental.
Arrecadação não acompanha impactos
Apesar da popularização das apostas, o retorno fiscal ainda é considerado pequeno. Dados do Banco Central indicam que os brasileiros destinaram R$ 240 bilhões às bets apenas em 2024, incluindo R$ 3 bilhões provenientes de beneficiários do Bolsa Família via Pix.
Em contrapartida, a arrecadação até setembro de 2025 somava apenas R$ 6,8 bilhões — chegando a cerca de R$ 8 bilhões no mês seguinte. Mesmo com projeção anual de R$ 12 bilhões, o montante representa menos de um terço do custo total estimado pelo estudo.
Atualmente, as casas de apostas são tributadas em 12% da receita bruta, e o Senado discute o PL 5473/2025, que propõe aumentar a alíquota para 24%. Apostadores também pagam 15% de Imposto de Renda sobre prêmios.
Os autores destacam que apenas 1% da arrecadação é destinada ao Ministério da Saúde — cerca de R$ 33 milhões até agosto — sem obrigatoriedade de aplicação na Rede de Atenção Psicossocial (Raps), responsável pelo atendimento em saúde mental no SUS.
Baixo impacto econômico e informalidade
Além dos danos sociais, o estudo classifica como “irrisório” o impacto econômico das bets na geração de empregos. Segundo dados oficiais, o setor contabilizava 1.144 empregos formais.
Em termos de renda, o levantamento aponta que a cada R$ 291 faturados pelas empresas, apenas R$ 1 vira salário formal. Enquanto isso, 84% dos trabalhadores do setor não contribuíram com a Previdência em 2024, percentual muito acima da média nacional (36%).
Experiências internacionais e propostas
O estudo apresenta medidas adotadas no Reino Unido para reduzir danos:
- Autoexclusão por até cinco anos
- Regulamentação rígida da publicidade
- Destinação de 50% da arrecadação para o tratamento dos afetados
Para o cenário brasileiro, o Ieps sugere:
- Aumentar a parcela da taxação destinada à saúde
- Formar profissionais do SUS para acolhimento
- Proibir propagandas e criar campanhas nacionais
- Restringir acesso de menores e pessoas de risco
- Implementar regras duras para operadoras
A diretora do Ieps, Rebeca Freitas, afirma que a ausência de regulação “amplia o risco de endividamento, adoecimento e impactos na saúde mental, sobretudo entre grupos mais vulneráveis”.
Reação do setor
O Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR), que representa 75% do mercado, se posiciona contra o aumento de impostos. A entidade argumenta que uma carga tributária maior pode fortalecer o mercado clandestino, já que mais de 51% das apostas online operam na ilegalidade.





