Avanço da direita em países vizinhos e presença naval dos EUA no Caribe aumentam o isolamento do regime venezuelano.

Por Karol Peralta
O ditador venezuelano Nicolás Maduro enfrenta a semana mais delicada de seu governo recente: perde aliados históricos nas urnas e observa o aumento da pressão militar dos Estados Unidos no Caribe, ampliando seu isolamento na América Latina.
O cenário político latino-americano sofreu um novo rearranjo com as derrotas eleitorais em Honduras e São Vicente e Granadinas, países que mantinham proximidade com Caracas. Em Honduras, a candidata governista Rixi Moncada ficou em terceiro lugar, abrindo caminho para dois opositores de direita — Salvador Nasralla e Nasry Asfura — ambos críticos ao regime de Maduro. Já em São Vicente e Granadinas, o primeiro-ministro Ralph Gonsalves, um dos apoiadores mais antigos do chavismo, perdeu a eleição após quase 25 anos no poder, sendo substituído por Godwin Friday, de centro-direita.
Essas mudanças enfraquecem ainda mais a influência do chavismo, movimento fundado por Hugo Chávez e mantido por Maduro desde 2013. A região, que já oscila há anos entre governos de esquerda e direita, agora demonstra um afastamento maior do modelo político venezuelano.
Mesmo países liderados por governos progressistas têm recuado no apoio a Caracas. Brasil, Chile, México e Colômbia, apesar das afinidades ideológicas em alguns períodos, limitaram seus laços com o regime, especialmente após as contestadas eleições venezuelanas de 2024, quando Maduro foi declarado vencedor apesar de acusações de fraude.
A relação com a Colômbia ilustra essa instabilidade. O presidente Gustavo Petro restabeleceu vínculos com Maduro no início de seu mandato, mas recentemente adotou postura mais crítica, afirmando que o venezuelano enfrenta problemas de “falta de democracia e diálogo”, embora negue ligações diretas com o tráfico de drogas, como alegam os Estados Unidos.
Outras mudanças no continente reforçam esse isolamento. Argentina, sob o governo de Javier Milei, rompeu relações políticas com Caracas e tem reforçado críticas públicas. Países como Equador, El Salvador e Bolívia também se distanciaram do chavismo ao adotar governos mais alinhados à direita.
Enquanto isso, a presença militar americana cresce rapidamente no Caribe. A “Operação Lança Sul” reúne mais de uma dúzia de navios de guerra e cerca de 15 mil tropas, aumentando a pressão sobre Caracas. O presidente americano Donald Trump realizou nesta semana uma reunião na Casa Branca para tratar dos próximos passos em relação à Venezuela, segundo fontes ouvidas pela CNN.
Diante desse cenário, Maduro reage com discurso desafiador e tenta demonstrar força interna. “Foram sanções, ameaças, bloqueios, e os venezuelanos não se acovardaram”, afirmou no último domingo, reforçando a retórica de resistência que o acompanha desde que assumiu o poder em 2013.
Apesar disso, especialistas apontam que o regime depende cada vez mais de poucos aliados. Cuba mantém apoio retórico, mas enfrenta sua pior crise econômica em décadas e tem pouca capacidade de oferecer suporte militar. Nicarágua, governada por Daniel Ortega, também evita maior envolvimento e se limita a críticas contra os EUA.
Entre discursos de resistência e negociações silenciosas, Maduro permanece apostando em uma estratégia que o acompanha há anos: esperar, tensionar e negociar nos bastidores. Diplomatas afirmam que o líder venezuelano dificilmente abre mão de suas cartas, a menos que seja forçado.
Com a América Latina redesenhando seus alinhamentos políticos e os EUA reforçando sua presença militar, o isolamento do regime tende a se aprofundar, mas os efeitos desse novo cenário ainda são imprevisíveis para a região.





