Em discurso na abertura da 80ª Assembleia Geral da ONU, presidente Lula reforça compromissos com paz, multilateralismo, clima e justiça social, criticando guerras, desigualdade e desinformação digital

Por Karol Peralta
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva abriu nesta terça-feira (23), em Nova York, os discursos da 80ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), reafirmando que a soberania do Brasil é inegociável e defendendo os valores democráticos, o multilateralismo, o desenvolvimento sustentável e o combate à mudança do clima.
Aplaudido em diversos momentos de sua fala de 15 minutos, Lula destacou que o mundo precisa se unir em prol da paz e do combate à pobreza, lembrando que, embora o Brasil tenha saído do Mapa da Fome em 2025, milhões de pessoas ainda sofrem com a escassez de alimentos.
“No mundo, há 670 milhões de pessoas famintas. A única guerra de que todos podem sair vencedores é a que travamos contra a fome e a pobreza. Esse é o objetivo da Aliança Global contra a Fome, lançada no G20 e que já conta com o apoio de 103 países”, afirmou.
Democracia e combate às desigualdades
Lula advertiu que a pobreza é terreno fértil para a fragilização das democracias e relacionou desigualdade social ao crescimento de discursos extremistas.
“A democracia falha quando mulheres ganham menos que os homens ou morrem pelas mãos de parceiros. Perde quando fecha portas e culpa migrantes. A pobreza é tão inimiga da democracia quanto o extremismo”, disse.
Ele defendeu ainda que os recursos globais sejam redirecionados para inclusão social, cobrando redução dos gastos militares, alívio da dívida externa de países pobres, sobretudo africanos, e tributação global mais justa, com maior contribuição dos super-ricos.
Brasil na abertura da Assembleia
Tradicionalmente, desde 1955, o Brasil é o primeiro Estado-membro a discursar na Assembleia Geral da ONU. Lula falou logo após o secretário-geral António Guterres e a presidente da sessão, a alemã Annalena Baerbock.
“Nossa missão histórica é tornar a ONU novamente portadora de esperança, promotora da igualdade, da paz, do desenvolvimento sustentável, da diversidade e da tolerância”, declarou.
Multilateralismo, soberania e justiça internacional
O presidente brasileiro fez um alerta contra o enfraquecimento do multilateralismo e contra medidas unilaterais que afetam democracias e economias. Citou a atuação das instituições brasileiras após os ataques de 8 de janeiro de 2023 como exemplo de resiliência democrática:
“Diante dos olhos do mundo, o Brasil deu um recado: nossa democracia e nossa soberania são inegociáveis. Seguiremos como nação independente e como povo livre de qualquer tipo de tutela”.
Comércio internacional e OMC
Lula chamou atenção para a crise do comércio mundial e defendeu a refundação da Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Poucas áreas retrocederam tanto quanto o sistema multilateral de comércio. É urgente refundar a OMC em bases modernas e flexíveis”, afirmou.
Plataformas digitais e desinformação
Outro ponto de destaque foi a crítica ao uso das plataformas digitais para disseminar intolerância, xenofobia, misoginia e fake news.
“Regular não é restringir liberdade de expressão. É garantir que o que já é ilegal no mundo real seja tratado assim também no ambiente virtual”, ressaltou.
América Latina e conflitos globais
Na pauta regional, Lula defendeu cooperação contra o crime organizado e pediu diálogo para resolver a crise na Venezuela e apoiar a reconstrução do Haiti, além de criticar a inclusão de Cuba na lista de países patrocinadores do terrorismo.
Sobre os conflitos globais, o presidente cobrou soluções pacíficas para Gaza e Ucrânia.
“O povo palestino corre o risco de desaparecer. Só sobreviverá com um Estado independente. Já na Ucrânia, todos sabemos que não haverá solução militar. É preciso construir caminhos para um acordo de paz”, disse.
Homenagens e legado humanista
Ao encerrar o discurso, Lula homenageou duas figuras que faleceram em 2025: o ex-presidente uruguaio Pepe Mujica e o Papa Francisco.
“Ambos encarnaram como ninguém os melhores valores humanistas. O futuro que o Brasil vislumbra não tem espaço para a confrontação. O amanhã é feito de escolhas e é preciso coragem para transformá-lo.”
ONU: 80 anos de história
A 80ª Assembleia Geral da ONU também marca os 80 anos de fundação da organização, criada em 1945 após a Segunda Guerra Mundial com a assinatura da Carta de São Francisco. Hoje, a ONU reúne 193 Estados-membros e dois observadores: a Palestina e a Santa Sé.
O tema da sessão é “Melhor Juntos: 80 anos e mais para paz, desenvolvimento e direitos humanos”.





